Dia 26 de outubro, véspera de eleição, 11 horas da manhã. O calçadão de Londrina ''fervilha'' de gente, especialmente no trecho próximo à praça Floriano Peixoto, ao lado da Catedral. Ali, misturam-se animadamente militantes e ''voluntários'', como são chamados aqueles que são pagos para fazer propaganda eleitoral de seus candidatos. Não brigam, nem disputam espaço, apenas agitam suas enormes bandeiras, tornando a passagem distraída pelo local um risco. Oferecem adesivos, ''santinhos'' e sorrisos, tentando conquistar os eleitores ainda indecisos.
Convencer por meio da conversa já fica mais difícil, porque o que mais anima o local é o som. Os jingles de campanha, vindos de alto-falantes ou de caminhões, espalham-se, elevam-se e voltam, concentrados. ''O quê?'' é a pergunta que mais se ouve, quando é possível ouvir alguma coisa. A resposta, contudo, nada mais é do que um enigma, um conjunto caótico de fins ou começos de palavras. O melhor, então, é assistir a movimentação e entrar na brincadeira de tentar entender as respostas.
Elizabeth Damas é de Apucarana e está há dois anos em Londrina. Filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), comenta que sua militância é ''herança de família''. Dona de casa, quatro filhas, sempre se coloca à disposição do partido nas eleições ''para pedir votos, agitar bandeiras e angariar fundos para a campanha''. Ela está lá, no calçadão, e acredita que a vitória de seu candidato ''pode mudar a história do Brasil''. Por isso, agita sua bandeira com o coração.
Para Karina Cândido dos Santos, 23 anos, que recebe 12 reais por dia, para trabalhar por meio período na campanha de Álvaro Dias e José Serra, a véspera das eleições está mais com jeito de confraternização. ''Eles gritam de lá, nós gritamos daqui'', comenta. Acredita que possa convencer os eleitores, ''entregando panfletos, tirando suas dúvidas'' e torce sinceramente por mudanças, ''porque a gente está cansada desses governos''.
Na ótica, bem em frente à agitação, a vendedora Viviane de Sá está desconsolada. ''O som é muito alto'', reclama, ''e incomoda bastante''. Segundo pensa, a movimentação dos militantes em busca de eleitores não traz muito resultado. ''Com essa confusão, eles acabam é perdendo o voto do comércio''.
Entre as bandeiras que se agitam, surge de repente, desfilando pelo calçadão, uma aparição do mundo da fantasia. Seriam a gatinha e a fada também militantes de alguma das campanhas? São apenas as artistas mirins Ana Cláudia e Vanessa, que tentam, sem muito resultado, vender ingressos para o espetáculo ''Cinderela'', em cartaz no Teatro Cultura, todos os domingos, às 16h00. ''Está difícil'', reclama Vanessa, ''ninguém escuta nada!''. E o pior, segundo Ana Cláudia, ''é que a cidade fica um lixo só, com todos esses papéis espalhados pelo chão''.
No fim da manhã, tudo se resolve: uma chuva inesperada faz militantes de campanha e divulgadores de teatro sair correndo, à procura de abrigo, justamente sob a proteção do comércio. Na verdade, quase tudo. O som continua, menos intenso, porque agora a disputa é com o barulho da chuva.

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