Sorocaba - O número de famílias assentadas nos primeiros dez meses de 2008 mostra que o governo pisou no freio da reforma agrária. De janeiro a outubro, foram fixadas em assentamentos apenas 18,6 mil famílias em todo o País, conforme dados obtidos pelo Grupo Estado. A queda em relação às 58,2 mil famílias assentadas no mesmo período de 2007, um ano considerado ruim para a reforma agrária, é de 68%. Ainda que o governo acelere os assentamentos no fim do ano, ficará longe do resultado final de 2007, quando 67,5 mil famílias foram assentadas.
  O ano de 2008 poderá ser o pior do governo Lula no quesito reforma agrária: quando assumiu, em 2003, com todas as dificuldades do início do mandato, o governo assentou 36,3 mil famílias. No total, em quase sete anos, o governo Lula pôs na terra 467,5 mil famílias, incluídas as deste ano. Mesmo sendo baixos ante o compromisso de assentar um milhão de sem-terra em oito anos, os números apresentados pelo governo ainda são contestados pelos movimentos de luta pela terra.
  De acordo com Ariovaldo Umbelino de Oliveira, da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), o governo incluiu na conta dos novos assentamentos a reposição de lotes desocupados em projetos antigos e a regularização de projetos de colonização agrária, alguns deles do período getulista.
Refluxo
  Para o diretor da Abra, se considerados os assentamentos ‘‘reais’’ - famílias de sem-terra que recebem o primeiro lote - os números são bem mais modestos. Este ano, o governo assentou até agora apenas 3.126 famílias, segundo ele. ‘‘Das 18.630 anunciadas, 9.196 são de assentamentos anteriores e 5.947, de projetos em áreas públicas, também antigos.’’ Fazendo o ‘‘expurgo’’ dos reassentamentos e das regularizações fundiárias - outorga de títulos de domínio a quem estava havia muito tempo na área - o número de famílias assentadas durante todo o governo Lula cai para cerca de 300 mil, afirma Oliveira.
  Ele acha que a questão agrária saiu da pauta, não só do governo, mas também dos movimentos sociais. ‘‘O refluxo do movimento de massas e o fluxo dos recursos financeiros governamentais canalizados para políticas compensatórias, tipo bolsas disso e daquilo, parecem que estão aquietando aqueles que lutaram pela reforma agrária nos últimos 30 anos. É preciso que seja dito também que o silêncio das massas camponesas é intrigante.’’

mockup