Rio de Janeiro - Minutos antes de ser levado para a Superintendência da Polícia Federal ontem, o ex-deputado Roberto Jefferson disse lamentar perder a liberdade, mas diz que caiu de pé. Ele saiu de Levy Gasparian, interior do Rio, para ser preso.
Condenado em regime semiaberto pelo caso do mensalão, ele disse que ainda não recebeu propostas de emprego para poder sair durante o dia da prisão.
"É uma grande perda. O homem tem que procurar acertar para não perder a liberdade. O valor supremo da vida é a liberdade. Lutem para manter a de vocês", disse Jefferson, ao lado da mulher, Ana Lúcia, aos jornalistas.
Questionado se arrependia-se de algo no caso do mensalão, ele disse que não. "Caí de pé. Minha música é "My Way". Não me rendi, não me ajoelhei e fiz da minha maneira. (...) Faço o bem. Não sou melhor do que ninguém. Mas não foi à toa que fui eleito por seis vezes deputado federal", disse ele.
Ele voltou a afirmar crer que o país melhorou após o caso do mensalão, revelado pelo ex-deputado em entrevista à Folha de S.Paulo, em 2005.
"O Brasil melhorou. A fiscalização da imprensa é intensa. E os políticos melhoraram seu comportamento. Não dá mais para brincar com a opinião pública nacional", disse ele.
O ex-deputado também disse que sentirá falta de guiar sua moto Harley Davidson. "O importante da Harley é o sentimento de liberdade. Não é a chegada o mais importante, mas sim a jornada. A liberdade é fundamental na vida do ser humano. E eu estou perdendo a minha", disse ele.
Jefferson assinou o mandado de prisão às 12h21. Ele agradeceu a cortesia dos agentes da Polícia Federal, que permitiram a ele tonar banho, trocar de roupa e almoçar antes de seguir para a Superintendência da PF no Rio.
Ele disse que está levando dois livros para a prisão, além da Bíblia. Questionado sobre seu futuro político, ele disse: "Vou ter tempo (para pensar)".
Jefferson foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no esquema do mensalão, e a uma pena de sete anos e 14 dias de prisão em regime semiaberto, mais o pagamento de R$ 720,8 mil em multas.

O caso
Em entrevista à Folha de S.Paulo em 2005, Jefferson, então presidente do PTB, revelou o mensalão, que foi entendido pelo STF como o esquema de compra de apoio político no Congresso Nacional durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A condenação apontou o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil), preso desde novembro no complexo penitenciário da Papuda, como o chefe do esquema.
Jefferson é o vigésimo dos 25 condenados do mensalão que teve prisão decretada - os outros cinco ou tiveram a pena convertida em restrição de direitos, multas e prestação de serviços à comunidade ou ainda têm recursos a ser analisados.
Ele chegou a solicitar prisão domiciliar em razão de problemas de saúde decorrentes de um câncer no pâncreas, mas teve o pedido negado pela Justiça.
Jefferson já havia dito em entrevistas que não tinha mais o câncer. Segundo ele, os problemas de saúde de hoje são decorrentes da cirurgia à qual foi submetida para a retirada do tumor no ano passado quando, segundo ele, sua saúde ficou frágil. Por isso, sua defesa solicitava a prisão domiciliar.
Jefferson criticou, inclusive, laudo médico do Inca (Instituto Nacional do Câncer), divulgado no fim do ano passado, que considerou desnecessária sua prisão domiciliar ou mesmo em unidade hospitalar.
Em dezembro, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, opinou, em parecer enviado ao STF, ser contrário a prisão domiciliar, o que facilitou a decisão de Barbosa.
No documento enviado ao presidente do STF, o procurador diz que recebeu informações da Divisão Médico Ambulatorial da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro de que há condições de Jefferson ter acompanhamento clínico e consultas periódicas com médicos oncologistas do sistema público, uma vez que ele é tratado pelo Inca.

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