O ex-dono do Banco Marka Salvatore Cacciola e o economista Luiz Augusto Bragança foram presos ontem pela Polícia Federal, depois de denunciados pelo Ministério Público, com mais 11 réus, por supostos crimes contra o sistema financeiro na crise da desvalorização do real de janeiro de 1999. O juiz Abel Gomes, da 6ª
Vara Federal Criminal, afirmou em despacho que a PF grampeou telefones de Cacciola e achou indícios de outros crimes, entre eles lavagem de dinheiro, que ainda não tinham sido descobertos. Gomes considerou também que o ex-banqueiro poderia prejudicar as investigações, por isso atendeu ao pedido feito pelo MPF.
O juiz negou pedidos de prisão contra Francisco Lopes, ex-presidente do BC (acusado, entre outras coisas, de desviar R$ 1,5 milhão em dinheiro público). Mas aceitou a denúncia contra todos os réus, por crimes como peculato, gestão temerária, corrupção passiva e falsidade ideológica.
A denúncia foi oferecida pelos procuradores da República Artur Gueiros, Bruno Acioli e Raquel Branquinho. Dois funcionários do Banco Central – a diretora de Fiscalização, Teresa Grossi, e Alexandre Pundek – foram denunciados. Dois ex-diretores do BC também são réus no processo: Cláudio Mauch e Demóstenes Madureira de Pinho Neto.
‘‘Requeridas pelo MPF e Polícia e deferidas judicialmente’’, afirmou Gomes em seu despacho, ‘‘medidas de interceptação de ligações telefônicas (...), de diversas conversas se pode detectar (...) que o acusado Salvatore demonstra indícios da prática de novos crimes, todos dentro do mesmo contexto, tais como crimes contra o sistema financeiro, ordem tributária e lavagem de dinheiro, como se depreende dos trechos degravados e transcritos (...)’’.
O magistrado também relata que as testemunhas Leila Malafaia e Leon Sayeg declararam ter recebido telefonemas do próprio ex-banqueiro e pelo menos um anônimo – o que poderia caracterizar intimidação. Na sua decisão, o juiz ainda lembra que Cacciola é tratado como ‘‘Capo’’ pelos seus funcionários. O despacho faz menção a crimes que seriam cometidos por Cacciola, mas que não foram informados.
O juiz também ressaltou que Cacciola possui instituições financeiras fora do Brasil e nasceu na Itália, ‘‘país que não extradita nacionais’’. Por isso, considerou Gomes, caso o ex-dono do Marka perdesse o processo, ele poderia fugir para o Exterior sem ser punido.
‘‘Isso sem contar as informações que o delegado Pontes, da Interpol de Brasília, ofereceu, no sentido de que o réu foi visto no Aeroporto de Genebra em julho de 1999, logo após a descoberta e apuração destes fatos, fazendo uso de passaporte que não era brasileiro, semelhante ao da República Italiana’’, acrescentou.
Contra Bragança, pesou a acusação da testemunha Regina Lúcia Bittencourt Sampaio. O juiz argumentou, em sua decisão, que Regina ‘‘relata já ter sido agredida fisicamente pelo réu, bem como o fato de que ele (Bragança) chegou a ligar para uma amiga da depoente, no sentido de que esta convencesse Regina a seguir exatamente a orientação que um advogado por ele contratado iria fornecer’’.
O magistrado considerou que, em relação aos outros cinco réus que tiveram prisões preventivas pedidas pelo MP (Lopes, Martins, a ex-diretora do Marka Cínthia Souza, o ex-presidente do Banco FonteCindam Luiz Antonio Gonçalves, que está no exterior, e o ex-dono do banco Roberto Steinfield), não havia indícios suficientes de que poderiam fugir do País, alegação dos procuradores para pedir a sua detenção.
Cacciola foi detido pela PF em um spa em Gramado (RS) e sua transferência para o Rio seria ontem à noite. Bragança foi preso em casa, no Leblon, no Rio. No fim da tarde, Bragança foi levado da PF ao IML, onde fez o exame obrigatório de corpo de delito e, de lá, para a Polinter. A previsão da PF era levar Cacciola direto do aeroporto para a superintendência da PF no Rio.

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