Cacciola ''deu um banho'', diz senador
Nas quase nove horas de depoimento à CPI dos Bancos ontem, o dono do Banco Marka, Salvatore Cacciola, demonstrou profundo conhecimento do seu negócio e do mercado, manteve a calma diante das inquirições dos senadores e um sorriso irônico, principalmente ao responder a perguntas que revelavam despreparo de alguns parlamentares para questionar as operações do mercado financeiro.
Enquanto o banqueiro prestava depoimento - iniciado às 10h45 e terminado às 19h30, transmitido ao vivo pela TV Senado - os concordavam que ele estava aproveitando seu grande momento desde a criação da CPI para dar o show. Ele está dando um banho, avaliou o senador Saturnino Braga (PSB-RJ).
Cacciola transferiu a responsabilidade pela operação de venda de dólares a preços mais baixos que os de mercado para o BC. Reclamou da imprensa e reiterou que foi vítima de um massacre. A opinião pública acha que sou cafajeste e sonegador, afirmou. Minha vida acabou, ninguém que saiu do Marka conseguiu emprego, e o Ratinho me coloca como assaltante, disse.
Sobrou crítica ao relator da CPI, senador João Alberto (PMDB-MA), por ter feito uma inquirição incompleta. O relator deixou a desejar desta vez, acusou o senador Eduardo Siqueira Campos (PFL-TO), que cobrou de João Alberto não ter feito perguntas sobre a remessa de R$ 17 milhões ao exterior por Cacciola e o bilhete escrito pelo banqueiro a Francisco Lopes, onde ele pede a interferência do ex-presidente do BC para resolver seu dilema.
Cacciola também não se intimidou com as intervenções mais agressivas. Provocado pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR), que afirmou ter Cacciola repassado patrimônio pessoal a terceiros para escapar de um confisco, ele respondeu: Obrigado pela leviandade da acusação. Requião devolveu, irônico: O senhor devia ser convidado para fazer palestras em universidades, doutor Cacciola.
A convicção de que estava protegido pela legislação, e pela defesa do BC de que a operação de socorro era necessária para evitar uma crise sistêmica, parece ter deixado Cacciola relaxado diante das pressões dos senadores, até mesmo para pedir desculpas, o que fez por duas vezes. O preço que estou pagando é um preço justo, eu tenho que ir para casa e não tenho mais banco, afirmou.
Sobre o dia 13 de janeiro deste ano, quando o BC anunciou a desvalorização do câmbio, ele disse: Foi o dia mais triste da minha vida. Um dia depois estava selada a ajuda aos bancos Marka e FonteCindam, que resultaram num prejuízo de R$ 1,5 bilhão aos cofres públicos. Não vim a Brasília para salvar o Marka, pois quando acordei no dia 13 já sabia que o banco e 32 anos da minha atuação no mercado financeiro estavam acabados, afirmou. Perdi tudo, mas o que importa é que tenho saúde, competência profissional e vou voltar a ganhar dinheiro; o banco era a coisa de que eu mais gostava na vida.
Perdi R$ 100 milhões, dos quais R$ 70 milhões no Brasil. Não entreguei minha declaração de renda este ano porque o Ministério Público confiscou todos os documentos. O meu banco tem um patrimônio de R$ 2 milhões, mas se algum de vocês quiser esse banco eu passo agora mesmo, porque restam muitos custos a serem cobertos, disse.
Cacciola foi enfático diante dos questionamentos dos senadores sobre os motivos que levaram o Marka a continuar vendendo dólares no mercado futuro de câmbio às vésperas da desvalorização do real. Eu acreditei no governo - e se fosse outro governo não teria acreditado - e no compromisso de não desvalorizar o real. Essa promessa estava clara no Memorando Técnico de Entendimento do acordo firmando com o Fundo Monetário Internacional, que projetada para este ano uma desvalorização do real semelhante a de 1998, afirmou.





