O banqueiro Salvattore Cacciola admitiu ontem no Rio ter escrito à mão um bilhete para o ex-presidente do BC Francisco Lopes, encontrado no apartamento deste durante busca e apreensão determinado pela Justiça. Mas negou ter recebido qualquer tipo de informação de Sérgio Bragança, ex-sócio de Lopes na empresa de consultoria Macrométrica, e de seu irmão Luiz Augusto, acusados de terem vendido informações privilegiados obtidas em conversas com Chico Lopes.
‘‘Conheço o Luiz Augusto do mercado, mas ele não me passou nenhuma informação’’, declarou Cacciola. Ele disse que usou a expressão ‘‘esquecer de tudo’’, no bilhete que enviou a Lopes, referindo-se à sua própria vida e a tudo o que perdeu com a desvalorização do real. Cacciola não quis fazer mais comentários sobre o bilhete, acrescentando que somente dará entrevistas após o seu depoimento à CPI dos Bancos.
Cacciola esteve reunido ontem com seu advogado, José Carlos Fragoso, acertando os detalhes dos depoimentos que fará hoje no Banco Central - seu depoimento na CPI dos Bancos, antes marcado para amanhã, foi transferido para quinta-feira.
Chico Lopes também conseguiu ontem adiar seu depoimento à CPI. Alegando ser objeto de ‘‘uma série de violências’’ - como a busca de documentos em sua casa, na última semana - o ex-presidente do BC disse que precisa permanecer no Rio para tomar as ‘‘providências legais cabíveis’’. Ele pediu 20 dias para esclarecer a venda de dólares abaixo dos preços de mercado ao Banco Marka. Mas a CPI marcou para dia 26 o seu depoimento.
Em depoimento prestado à comissão de sindicância do BC, na sexta-feira, Lopes afirmou que a operação de socorro financeiro aos bancos Marka e FonteCindam durante a desvalorização do real foi ‘‘absolutamente legal’’ e decorreu de uma decisão colegiada, aprovada por toda a diretoria do BC. ‘‘Se não tivesse certeza absoluta da legalidade dessas operações, elas não seriam realizadas’’, afirmou o ex-presidente do BC à comissão. O documento foi enviado à CPI ontem e divulgado pelos senadores.
Chico Lopes afirmou que, antes do fechamento das negociações com os bancos Marka e FonteCindam, consultou o procurador Francisco Siqueira, do BC. O ex-presidente do BC informou também que conversou com outros dois procuradores, dos quais obteve aval para a operação de venda de dólares ao Marka e ao FonteCindam a preços inferiores aos do mercado.
Segundo o documento entregue aos senadores, Lopes confirmou ter presidido a reunião da diretoria colegiada do BC que decidiu prestar socorro aos dois bancos, mas informou não ter atuado na mesa de operações da instituição. Ele comentou que a carta enviada pela Bolsa de Mercadorias & de Futuros (BM&F) ao BC - prevendo um ‘‘risco sistêmico’’ no sistema financeiro - foi ‘‘um elemento importante’’ na avaliação da diretoria do BC para autorizar o socorro aos bancos Marka e FonteCindam.
O economista disse que realizou operações de venda de dólares aos bancos FonteCindam e Marka a preços mais baixos do que os do mercado. Segundo o relatório sobre o depoimento, os dólares foram vendidos no dia 14 ao Banco Marka por R$ 1,275 e ao FonteCindam, no mesmo dia, a R$ 1,32. Ainda de acordo com o relatório, Lopes confirmou que, em 19 de janeiro, fez outra venda de dólares ao FonteCindam, desta vez a R$ 1,56.
A decisão teria sido registrada em ata da reunião realizada às 9h30 de 14 de janeiro, à qual estava presente, segundo o ex-presidente, toda a diretoria do BC, exceto Gustavo Franco, que havia deixado a presidência da instituição, e o então diretor de Normas, Sérgio Darcy, que estava de férias. Lopes disse que o voto número 006, apresentado pelo então diretor de Assuntos Internacional, Demóstenes Madureira de Pinho Neto, e subscrito pelo então diretor de Fiscalização, Cláudio Mauch - que depôs ontem na CPI, foi aprovado pela diretoria.
Esse voto permitiu ao BC operar no mercado futuro de câmbio da BM&F. Lopes considerou essa operação ‘‘perfeitamente legítima’’ porque teve o ‘‘objetivo de defender o real’’.

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