Brasília - O acordo de cooperação em biocombustíveis, que os presidentes George W. Bush e Luiz Inácio Lula da Silva assinarão sexta-feira, dia 9, em São Paulo, será o pilar da ''renovação'' da relação Brasil-Estados Unidos. Mas essa mudança - supostamente para melhor - não significará a inflexão da política externa do governo Lula, concentrada nas relações com os vizinhos sul-americanos e os demais países em desenvolvimento. Embora admita um relacionamento ''íntimo'' entre o Brasil e os EUA, o chanceler Celso Amorim avisa que a cooperação Sul-Sul continuará no topo da agenda internacional de Brasília.
Com esse enfoque diplomático, Lula receberá Bush na sexta e viajará no fim do mês para visitá-lo em Camp David, residência de campo presidencial, a 100 quilômetros de Washington. A programação dos dois encontros, espaçados em apenas três semanas, foi preservada num claro sinal do interesse de americanos e brasileiros de rever o morno relacionamento bilateral dos últimos seis anos.
Adormecida em alguma gaveta da Casa Branca, a proposta de cooperação na área de biocombustíveis fora apresentada por Lula em sua visita a Bush, em 2003. Agora, tornou-se uma espécie de bóia em alto-mar. A parceria permitirá ao Brasil ver construído, na prática, um mercado consumidor permanente de biocombustíveis e de motores flex fuel no mundo e a liberalização gradual desse protegidíssimo setor em longo prazo. Ou seja, a inclusão real dos biocombustíveis na matriz energética mundial.
A parceria atrai especialmente o Brasil por um aspecto capaz de preservar a altivez do governo Lula na relação bilateral: o grau de igualdade no desenvolvimento da tecnologia da produção do etanol e na pesquisa sobre celulose como matéria-prima. ''A cooperação abre novo paradigma para as relações bilaterais. Nesse campo, EUA e Brasil estão em condições paritárias'', resumiu o subsecretário-geral de Assuntos Políticos do Itamaraty, Everton Vargas.
Vitalizada pelo desafio lançado por Bush, de reduzir a dependência de seu país dos combustíveis fósseis, e pela necessidade de reforçar sua liderança na América Latina, a iniciativa trouxe dois benefícios adicionais aos EUA. O primeiro, a sedução do governo brasileiro para uma relação mais madura e diversificada. O segundo, a inclusão do Brasil entre as nações menos vulneráveis à influência da Venezuela de Hugo Chávez na América do Sul.
Neste momento, interessa particularmente ao governo brasileiro tal diferenciação. ''O Brasil pode oferecer sua postura de nação democrática, respeitadora da imprensa livre, com uma agenda social importante e uma política externa criticada por alguns setores, mas respeitada inclusive nos Estados Unidos'', assinala Amorim.

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