Brasília Quase dois meses depois de tomar posse, o governo Lula ainda não conseguiu se encontrar na complexa máquina da administração pública federal. Amarrados por nova estrutura de cargos que ainda não saiu do papel, alguns ministros e secretários especiais, como José Graziano (Segurança Alimentar) e José Fritsch (Aquicultura e Pesca), continuam a trabalhar com apenas meia dúzia de funcionários, enquanto outros com cargos à disposição não conseguiram achar nomes para assumir áreas estratégicas.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, por exemplo, ainda não indicou os novos titulares das secretarias de Comércio Exterior e Desenvolvimento da Produção, dois pilares de sua pasta e do programa de governo do PT. ''Tenho os nomes, mas não vou divulgá-los agora'', disse Furlan no início do mês. Três semanas se passaram e os cargos continuam ocupados interinamente pelos secretários-adjuntos da gestão passada.
O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, também não escolheu até agora o secretário de Acompanhamento Econômico, responsável pela elaboração de políticas de preços e controle da concorrência, e o presidente do Banco da Amazônia (Basa). O presidente do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), Roberto Smith, só tomou posse na quarta-feira passada. Em outros bancos federais, a troca de diretores não se completou.
Mesmo dentro do Ministério da Fazenda, a equipe passa por uma fase de acomodação. Nesses primeiros 50 dias, em que os temas principais foram a nova meta de superávit primário e os cortes no Orçamento, tiveram destaque os secretários do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, e o secretário-executivo, Bernard Appy. Mas interlocutores de Palocci começam a se mostrar um pouco preocupados pela ausência de um ''gerentão'' que conheça a máquina e saiba tirar do papel as idéias do governo.
Além dessas dificuldades, tanto a Fazenda quanto outros ministérios enfrentam sérios problemas de comunicação. A agenda de alguns ministros deixou de ser divulgada, e pedidos simples de informação se perdem na burocracia estatal ou esbarram nas assessorias. Para agravar, o Palácio do Planalto está iniciando uma campanha, organizada pelo Gabinete de Segurança Institucional, para evitar o vazamento de informações. Entre os ministérios, já é possível localizar alguns pontos de atrito.
O ministro Furlan, por exemplo, tem evitado de tratar de temas polêmicos com o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, que goza de relativa autonomia. Sua idéia de centralizar as ações de promoção das exportações em sua pasta também esbarrou no Itamaraty, que precaviu-se contra a possível perda de controle do Departamento de Promoção Comercial subordinando o órgão diretamente à Secretaria-geral das Relações Exteriores.

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