Buaiz sai e gera nova crise no PT
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segunda-feira, 11 de agosto de 1997
Agência Folha São Paulo 
O governador do Espírito Santo, Vitor Buaiz, oficializou ontem sua saída do PT e mergulhou o partido em mais uma crise. Existia uma incompatibilidade política pela postura sectária das bancadas estadual e federal do PT em relação a meu governo, afirmou Buaiz, depois de três horas de reunião com a cúpula da legenda, em São Paulo.
Apesar de esperada, a saída de Buaiz é considerada pela direção do PT como talvez o mais rude golpe da sua história, por reforçar a imagem que é impossível governar com o PT. O nível de sectarismo e a luta interna colocam em risco a sobrevivência do partido, afirmou José Dirceu, presidente nacional do PT.
Dirceu, Luiz Inácio Lula da Silva, José Genoino e Cândido Vaccarezza tentaram convencer Buaiz a não abandonar a legenda. Como consolo, obtiveram a promessa que o governador capixaba não se filiará a outro partido e aguardará o resultado da convenção nacional do partido, no final de agosto, para voltar a conversar com a cúpula, embora o retorno seja quase impossível pelos dirigentes do PT. A sociedade fica constrangida e não entende que o partido do governador faça manifestações na porta do palácio contra a administração, disse Buaiz.
O conflito entre o PT capixaba, hoje dominado pela ala de esquerda da agremiação, e Buaiz deve-se basicamente à tentativa do governador de enxugar a máquina pública promovendo demissões de funcionários e privatizando estatais. Buaiz declarou ainda que agora se sente mais à vontade para enxugar a máquina pública, sem ter que enfrentar a oposição de seu próprio partido. Vai ser melhor sem pressão dos sectários, disse. O governador, na conversa com os dirigentes, pediu que o partido, na próxima convenção nacional, defina qual o papel de Estado que defende e, também, o que espera de seus governantes.
Na entrevista, Buaiz poupou a direção nacional do PT e até manifestou apoio à candidatura de José Dirceu à reeleição. Dirceu vai enfrentar em convenção o deputado federal Milton Temer (RJ). Na carta que enviou ao partido, porém, o governador capixaba foi mais duro. No texto, Buaiz define a disputa entre os grupos petistas como luta fraticida para afirmar ou negar velhos dogmas da esquerda, dissociados da realidade brasileira e dos interesses maiores da população hoje. Em outro trecho, Buaiz aponta intolerância de grupos sectários que se consideram donos da verdade revolucionária.
O governador afirmou na carta que a população capixaba passou a encarar o seu governo como refém do sectarismo esquerdista. Buaiz negociou a saída com a cúpula do PT. Trata-se da separação amigável proposta por Lula. Acusado por grupos petistas de ser simpático a Fernando Henrique Cardoso, o governador afirmou que, no quadro atual, votaria em Lula para presidente da República. Lula não quis participar da entrevista dada pelo governador e Dirceu no final da reunião. Lula e Dirceu já não acreditavam na permanência de Buaiz no PT, pelo nível de divergências entre o diretório capixaba e o governador.
Os dois dirigentes não concordavam com algumas ações de Buaiz. Lula havia dito na última sexta-feira que o governador iludia-se ao achar que FHC poderia apoiá-lo em 98. Hoje, Buaiz negou que tenha pretensão de disputar novo mandato. O presidente petista não deu cheque em branco à administração Buaiz, mas condenou o comportamento dos opositores internos do governador. Divergências são normais em partido democrático, mas nada justifica o que ocorreu no Espírito Santo, declarou Dirceu.
Buaiz era um dos dois únicos governadores eleitos pelo PT em 94. O sobrevivente é Cristovam Buarque, do Distrito Federal.


