O ex-governador Leonel Brizola (PDT), candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mostrou nos últimos dias que vai dar trabalho a seus aliados na campanha eleitoral. De mero coadjuvante de Lula, como costuma se autodefinir, Brizola deixou claro que não tem nada. Com suas últimas declarações sobre a anulação da privatização da Companhia Vale do Rio Doce e do leilão do Sistema Telebrás, caso ele seja realizado, ficou evidente que o ex-governador não ocupa o lugar de um simples e tradicional candidato a vice.
Depois de endossar a acusação de Lula de que o leilão da Telebrás pode servir para fazer caixa 2 para a campanha de Fernando Henrique, Brizola foi mais além. Ele defendeu, salientando que eram suas as idéias, que, mesmo que não sejam levantadas irregularidades por uma auditoria a ser feita numa administração de esquerda, a venda da Vale do Rio Doce deveria ser cancelada num virtual governo Lula por um ‘‘simples despacho’’, depois de um encaminhamento judicial.
As declarações de Brizola incomodaram os aliados. Parlamentares do PT chegaram a defender o ‘‘enquadramento’’ do ex-governador para que ele medisse mais suas palavras. Para líderes do PT, entre os quais o deputado Carlos Santana (PT-RJ), Brizola está exagerando em suas colocações. Sem se incomodar com as críticas, ele explicou que ‘‘não está fazendo nada para prejudicar Lula’’. ‘‘Não quero criar caso, não quero prejudicar a frente’’, admitindo que num encontro com Lula, pode, ‘‘quem sabe’’, ‘‘afinar os discursos’’ como forma de haver consenso sobre as privatizações.
Mas ele admite que, enquanto não forem definidos os pontos do programa de governo, que ainda está sendo elaborado, não vai deixar de emitir sua opinião quando questionado por jornalistas. ‘‘Vocês (jornalistas) perguntam e eu tenho de responder’’, defendeu-se Brizola.
O ex-governador disse que não está tomando mais espaço do que deveria. ‘‘Eu sou presidente de um partido, tenho uma vivência muito profunda, com mais experiência nesta área’’, acrescentando que foi um dos redatores do estatuto da Embratel, e seu governo no Rio Grande do Sul expropriou a IT&T e a Bond & Share, duas empresas estrangeiras que tinham a concessão dos serviços no Estado de telecomunicação e de energia elétrica, respectivamente. Da nacionalização da IT&T, AT&T atualmente, nasceu a Embratel, segundo ele.
O coordenador do programa de governo do PT, Marco Aurélio Garcia, nega que haja qualquer desconforto por causa do espaço que Brizola ocupa na aliança. ‘‘Ele tem uma longa biografia e a união Lula e Brizola é um fenômeno positivo’’. Para Garcia, a chapa apresenta uma mensagem de que a esquerda ‘‘não se une só na prisão e no exílio’’. ‘‘É claro que nós temos diferenças, porque se não nós já tínhamos virado um único partido’’, declarou.
Para o cientista político do Instituto Universitário de Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj) Jairo Marconi Nicolau, no entanto, Brizola vai ser a ‘‘sombra’’ de Lula na campanha. ‘‘Brizola não é candidato a vice, ele é o Brizola, não é de sua natureza ser um vice clássico’’. Segundo Nicolau, não há como se imaginar que o ex-governador deixe de dar declarações que há muito tempo fazem parte de seu discurso.

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