O presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, colocou ontem em xeque mais um ponto da versão do pastor Caio Fábio D’Araújo Filho para a sua participação no caso do dossiê com supostos documentos que comprovariam que o presidente Fernando Henrique Cardoso e outros tucanos têm US$ 368 milhões em uma empresa nas Ilhas Cayman. Brizola disse que nunca telefonou para o advogado Nilo Batista dizendo ter sido procurado por um homem com sotaque inglês que estaria querendo negociar a documentação. ‘‘Só tratei desse assunto com uma pessoa e somente com uma: o pastor Caio Fábio’’, reafirmou Brizola.
Segundo o religioso sustenta, um homem de cerca de 65 anos, com quem se encontrou no Hotel Ritz de Fort Lauderdale e que lhe disse ter acabado de falar com Brizola pelo telefone celular, foi quem ‘‘introduziu o elemento negocial na conversa’’ (pediu dinheiro). O pastor, que nega ter feito intermediação financeira nas conversas com a frente das esquerdas, contou que, logo após falar com o estrangeiro, ligou para Nilo, que teria lhe relatado a conversa com Brizola e o aconselhado a ‘‘cair fora’’. Caio Fábio, que está na Flórida (EUA), não foi localizado ontem para comentar o assunto.
Brizola afirmou ainda que considera o pastor ‘‘uma pessoa de bem’’, mas que ele aparentemente está sendo envolvido em muitas ‘‘pressões jornalísticas’’ e, por isso, talvez possa estar confundindo detalhes do que realmente ocorreu. ‘‘Não falei com inglês nenhum, não conheço nenhum inglês, a não ser o príncipe Charles’’, brincou. O pedetista negou conhecer James Degan, que seria o nome do homem com quem Caio Fábio teria falado no Ritz. O ex-governador do Rio acusou o governo de estar tentando esconder o caso do dossiê.
‘‘Quero fazer uma sugestão: por que o presidente e todos os apontados neste caso não dão uma procuração para uma personalidade insuspeita, como Evandro Lins e Silva, ou para uma comissão de jornalistas, para que façam um levantamento sobre contas que tenham no exterior?’’, afirmou. Brizola reafirmou que a oposição teve uma atitude ‘‘irrepreensível’’ ao não usar na campanha eleitoral uma denúncia que não podia comprovar, mas agora as acusações devem ser investigadas.
O procurador regional dos Direitos do Cidadão da Procuradoria da República no Rio, Daniel Sarmento, afirmou ontem que está tentando conseguir, junto a universidades e entidades técnicas, assessoria tecnológica para o inquérito civil público que abriu ontem para obrigar a Telerj a garantir o sigilo telefônico no Rio. Segundo ele, seu objetivo, no caso, não é punir ninguém nem iniciar uma ação civil pública contra a empresa, mas tentar, ao fim da investigação, conseguir um acordo que leve a telefônica fluminense a adotar medidas ou tecnologias que impeçam os grampos. O processo judicial seria o último recurso, a ser usado apenas se não houvesse entendimento.
‘‘Minha preocupação não é com entidades como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, que pode se proteger com equipamentos, mas com o cidadão comum’’, afirmou. ‘‘Claro que a segurança total é impossível, mas hoje qualquer um pode ser grampeado’’, contou.
Sarmento enviou ontem ofícios à Agência Nacional de Telecomunicações e à Telerj para saber quais são os procedimentos de segurança usados pela empresa, quais são os disponíveis e quais a Anatel exige, e à Polícia Federal e à Secretaria da Segurança Pública, para apurar quantos inquéritos sobre violação do sigilo telefônico correm no Rio. Sem um especialista, ressaltou, não será possível, porém, avançar muito no inquérito.EstrangeiroLeonel Brizola: ‘‘De inglês só conheço o príncipe Charles’’Wilson Tosta
Agência Estado

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