O clima de nervosismo e guerra nunca visto antes entre os militantes que lotaram o plenário da Câmara para a convenção nacional do PMDB mais parecia uma briga selvagem de torcidas em estádio de futebol do que um encontro partidário para a discussão de uma tese. Com provocações entre si e pancadarias, o comportamento das torcidas que, do lado esquerdo do plenário, defendiam a candidatura própria e, do lado direito, a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, impediu que o ex-presidente Itamar Franco começasse seu discurso e acabou em pancadaria, constrangendo os dirigentes das duas facções do partido.
O presidente do PMDB, deputado Paes de Andrade (CE), abriu oficialmente a convenção às 11 horas, lembrando que aquele era o ‘‘partido do calor e dos debates’’. A militância, fora de controle, mostrou que era mais do que isso. Bastou Paes tentar emplacar Itamar Franco para o primeiro discurso na tribuna para os governistas chiarem e as torcidas começarem a se agredir com socos e empurrões. Com a voz fraca e abatido, Itamar teve de esperar 15 minutos para que conseguisse começar a falar. O líder do PMDB no Senado, Jáder Barbalho (PA), tentou impedir.
Aos gritos de ‘‘traidor’’ dirigidos a Jáder, a torcida não deixava a Mesa conduzir os trabalhos, e os gritos de ordem dos dois lados impediam os discursos. Nem mesmo os peemedebistas que defendem a candidatura própria, nem os aliados da reeleição conseguiam fazer seus discursos e ser ouvidos pela platéia. Apontado como omisso pelo grupo dissidente do PMDB e por Paes, que reclamava a ausência da segurança da Casa no plenário, o presidente da Câmara, deputado Michel Temer (SP), desistiu de negociar com Paes o esvaziamento do plenário, como queriam os próprios aliados do governo. ‘‘Convenção do PMDB sempre foi assim’’, justificou-se Temer.
Foram necessárias três horas para que falassem Itamar Franco, o senador Roberto Requião (PR) e o ex-governador paulista Orestes Quércia, pela tese da candidatura própria, e os líderes do partido no Senado, Jáder Barbalho (PA), e na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), em defesa da reeleição de Fernando Henrique.
Já eram 12h15 quando os ministros peemedebistas Eliseu Padilha (Transportes) e Íris Rezende (Justiça) juntaram-se aos governistas na Mesa do plenário. Ao lado deles, na Mesa, estava de volta Itamar Franco, calado, enquanto Jáder debulhava um discurso que eram só agressões ao ex-presidente, mas era abafado pelo grito das torcidas. ‘‘Não estou ouvindo o Jáder’’, comentava Itamar com os companheiros de mesa. A contestação a Jáder Barbalho veio do senador Roberto Requião (PR), que fez o discurso mais longo da convenção, de 40 minutos de duração, e foi tão maltratado quanto Itamar pela torcida organizada do apoio à reeleição.
Enquanto Requião discursava, Jáder, de pé, cochichava no ouvido do líder Geddel Vieira Lima - o próximo do lado do governo a ir à tribuna -, lembrando fatos para Geddel usar no discurso para atacar Itamar e Requião. Moedas eram jogadas sobre os governistas na Mesa pelos militantes que defendiam candidatura Itamar, a maioria composta pelo MR-8 de Orestes Quércia. O ex-governador foi o último a falar, quando a torcida, enfim, calou-se um pouco para ouvir seu discurso. Do outro lado, a militância não parou: ‘‘Disque-Quércia, disque-Quércia’’, repetia a torcida, lembrando-se da campanha lançada pelo seu ex-rival Roberto Requião, para que a população pudesse fazer denúncias contra Quércia.

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