Briga entre aliados ameaça reforma
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quarta-feira, 16 de abril de 1997
Agência Estado De Brasília 
Arquivo FolhaDemolidorAécio Neves (esq.), em recente encontro com Fernando Henrique: oposição tucana enterrou acordo do extratetoO racha na base parlamentar do governo pode comprometer a votação da reforma administrativa. Hoje as divergências entre PFL e PSDB exigiram a intervenção do presidente Fernando Henrique Cardoso para tentar acalmar os aliados e evitar o adiamento da votação. A emenda voltou à pauta do plenário da Câmara dos Deputados ontem à noite, mas as questões mais polêmicas, responsáveis pela paralisação da votação na semana passada, como o teto salarial do servidor e a estabilidade, ficaram para a próxima semana.
Depois de muito esforço os líderes mobilizaram suas bancadas para votar apenas dois destaques de pequena importância, depois de derrubar outros 46 destaques simples. Um dos destaques aprovados, por 433 votos a favor, 8 contra e 9 abstenções, com apoio do bloco de oposição, prevê a retirada da expressão a critério de cada Poder, de um dispositivo da emenda constitucional que trata da remuneração dos servidores públicos. O outro destaque, aprovado por 423 a zero e cinco abstenções, suprime a expressão de qualquer dos Poderes do dispositivo que trata, na emenda, da limitação dos gastos públicos com a folha de pagamentos de pessoal.
Os desentendimentos entre o PFL e o PSDB não são recentes, mas culminaram com a posição do líder tucano, Aécio Neves (MG), de retirar seu apoio ao acordo que permitia um teto salarial extra para parlamentares e outros ocupantes de cargos eletivos, além de cargos comissionados. Atrás desta briga está, também, a disputa pela liderança do governo na Câmara, cargo desejado pelo PSDB.
Aécio provocou uma desagregação total e absoluta da base governista, desabafou o líder do PFL, Inocêncio Oliveira (PE), pivô da briga de ontem. As divergências não podem prejudicar as questões principais do País, contratacou o líder tucano.
A descrença no sucesso da reforma administrativa já atingiu o partido do presidente Fernando Henrique. Essa reforma está condenada, advertiu a deputada Zulaiê Cobra (PSDB-SP). O presidente deveria desistir dessa emenda e começar tudo de novo, porque sua base está moralmente abalada, continuou, depois de ter avisado ao líder do governo, Benito Gama (PFL-BA), para não contar com seu voto na sessão de ontem porque ela não saberia em que estaria votando.
A articulação tucana para retirar do PFL a liderança do governo e as declarações de Aécio Neves contra o acordo do teto extra, que antes de cair chegara a ser endossado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, levou o líder pefelista Inocêncio Oliveira (PE) a tomar uma atitude drástica. Na frente de outros líderes, Inocêncio referiu-se a Neves como moleque e recusou-se a sentar à mesma mesa com o tucano na reunião prevista para mais tarde com o ministro de Assuntos Políticos, Luiz Carlos Santos.
Toda a desagregação da base em função da polêmica do teto extra levou o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), a fazer um duro discurso no início da sessão. Temer havia sido avisado pelo líder do PPB, Odelmo Leão (MG), de que o partido entraria em oposição se ele não fizesse uma defesa pública do Parlamento. Da mesa do plenário o presidente negou a existência de qualquer teto extra para parlamentares e insistiu que o que foi aprovado até agora é o teto único de R$ 10,8 mil. Não haverá qualquer emenda propondo teto maior que esse valor, afirmou. A opinião pública tem de ter ciência exata do que se aprova aqui dentro, continuou, reclamando das informações divulgadas pela imprensa.
O teto extra está fora da reforma até o momento, mas os líderes ainda sustentam a emenda que permitirá o aumento automático dos salários dos parlamentares e da cúpula do Executivo e Judiciário assim que a reforma for promulgada. Para garantir essa emenda, serão necessários 308 votos favoráveis.


