Arquivo FolhaPaulo Octávio: 23 milhões por um esqueleto de shopping em BrasíliaA bancada da construção civil é mais visível para os eleitores do Distrito Federal do que para os dos 26 estados. Todos os grandes empreiteiros de Brasília estão envolvidos na política e ostentam seus nomes nas placas dos edifícios que constróem. Os mais conhecidos são o deputado federal Wigberto Tartuce (PPB-DF), o deputado distrital Luís Estêvão (PMDB) e o ex-deputado Paulo Octávio (PFL). Mas é em Brasília também que se concentram os empreendimentos de Sergio Naya, eleito pelo PPB de Minas, mas morador da capital.
Às vezes, os deputados empreiteiros levam para a política a concorrência empresarial, mas também há casos em que eles estão solidamente unidos pelo concreto e por pendências judiciais. Um exemplo é o prédio inacabado do que deveria ser um shopping-center no Lago Norte da cidade. Há cerca de oito anos, Sérgio Naya, Paulo Octávio e Luís Estêvão começaram a construir a obra, num terreno que era público, mas a abandonaram quatro anos depois. O feio esqueleto do prédio ornamenta a entrada do Lago Norte. Onde deveriam estar as lojas há ninhos de ratos e cobras. A administração do Lago sugere às crianças que nunca utilizem o local para brincar, porque é perigoso.
O governo do Distrito Federal tentou reaver o terreno, mas o contrato tem uma cláusula de retrovenda: se os sócios não cumprissem o acordo, o poder público teria de recomprar o imóvel. A operação até que foi tentada, mas os ainda donos do pedaço de terra urbana exigiram R$ 23 milhões. O governo não quis gastar este dinheiro e ofereceu, em troca, uma área rural, cujo valor seria semelhante. Os sócios recusaram a proposta. A pendenga foi parar na Justiça.
ProtestoNo ano passado um grupo de moradores do Lago Norte organizou um protesto na pista em frente ao esqueleto do que deveria ser o shopping center. O deputado Luís Estêvão foi informado e mandou para o mesmo local uma tropa de apoiadores. Só não houve conflito porque próximo funciona um posto policial e as duas partes foram mantidas cada uma de um lado da pista. Todos os que passavam recebiam dois tipos de panfletos. Um, com críticas aos sócios Naya, Estêvão e Paulo Octávio; outro, de Estêvão, com ataques ao governo de Brasília, segundo ele o responsável pela paralisação da obras.
Luís Estêvão e Paulo Octávio estão brigados hoje. De sócios no aval da chamada Operação Uruguai para a campanha do então candidato a presidente Fernando Collor - pela qual teria sido obtido empréstimo de US$ 5 milhões, no Uruguai -, transformaram-se em inimigos. Estêvão tomou o PRN de Paulo Octávio, causou-lhe a derrota na eleição passada e, depois, impediu, com ações na Justiça, que seu desafeto construísse um hotel à margem do Lago Paranoá. Paulo Octávio decidiu aguardar a eleição deste ano para dar a resposta a Estêvão. Deverá apoiar a reeleição de Cristóvam Buarque, contra o antigo amigo e sócio.
ProconOs deputados construtores também frequentam as listas de reclamações no Procon e de ações na Justiça. No Procon, a empresa WVTartuce é a terceira na lista geral de queixas. Da mesma forma com que expôem seus nomes nas obras, às vezes são os clientes que usam faixas para tornar públicas suas reclamações. O nome de Tartuce está num prédio inabitável do novo setor Sudoeste. Na Asa Norte do Plano Piloto, os moradores de um edifício construído pela OK, de Luís Estêvão, conviveram mais de quatro anos com feios andaimes e placas alertando os passantes sobre o perigo das lajotas do revestimento, que estavam caindo. O caso foi à Justiça e só agora, no ano das eleições, os reparos começaram. (AE)

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