Brasileiro sabe votar, aponta pesquisa da USP
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sábado, 04 de julho de 1998
Cláudia Dianni Agência Estado 
O eleitor brasileiro sabe votar, é estratégico na hora de escolher seu candidato, identifica-o ideologicamente e é fiel às suas convicções políticas. As conclusões, que derrubam a tese de que o brasileiro não sabe votar, são da pesquisa Tipologia do Voto Brasileiro, feita ao longo de dez anos sob a coordenação do professor de Ciências Políticas José Augusto Guilhon Albuquerque, da USP e financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). De acordo com o levantamento, 40% dos eleitores se autodefinem como de centro, 35%, de direita e 25%, de esquerda.
Em 1989, 50% dos entrevistados reconheciam ter identificação partidária. Em 1996, essa porcentagem saltou para 70%. A escolha ideológica era a justificativa de 60% dos votos pesquisados e aumentou para 81% no mesmo período. Geralmente o eleitor sabe reconhecer a que ideologia o partido pertence, diz Guilhon.
Nas eleições de 1994, 55,7% do eleitores que votaram em Lula em 1989 repetiram o voto. No pleito que elegeu o presidente Fernando Henrique Cardoso, 65,1% dos eleitores do governador Mário Covas, que concorreu à presidência em 1989, votaram em FHC e 74,2% dos eleitores do ex-presidente Fernando Collor não migraram para a esquerda, mas votaram no atual presidente. Isso demonstra que o eleitor mantém coerência com seu voto, analisa Guilhon.
De acordo com a pesquisa, o raciocínio do eleitorado segue três orientações. O eleitor vota por identificação com o partido ou com o candidato, por oposição à situação ou a outro candidato ou por expectativa de benefício que possa alcançar com a vitória do escolhido. O professor explica que, nas entrevistas feitas com os 7,4 mil eleitores após três pleitos, os entrevistados demonstravam consciência da razão pela qual estavam votando.
Nas três últimas eleições prevaleceu o voto da expectativa por benefícios. Em 1994, 71,3% dos eleitores pesquisados escolheram FHC por essa opção. Esse também foi o anseio de 56,3% dos eleitores do prefeito Celso Pitta (PPB), que foram ouvidos. Em 1989, 80,3% dos entrevistados elegeram Collor pelos benefícios que esperavam.
Os números mostram que a esquerda atrai votos por identificação. O eleitor escolhe alguém de sua profissão, de sua religião ou de seu partido, explica Guilhon. Nesse item está o melhor desempenho do petista Luiz Inácio Lula da Silva nas duas eleições em que concorreu até agora e da ex-prefeita Luiza Erundina, derrotada por Pitta em 1996.
Segundo Guilhon, o fim do regime militar diluiu o voto por oposição na direita e na esquerda. As pessoas agora querem um melhor desempenho e não punir o desempenho. O voto por oposição, geralmente estratégico, de acordo com o professor, não foi responsável por nenhuma vitória nos últimos anos, mas levou o pedetista Francisco Rossi para o segundo turno na eleição paulista em 1994.
A maioria dos eleitores de Rossi votou nele porque não queria Covas; por isso a candidatura dele se esvaziou em 1996. Segundo o especialista, os votos do pedetista diluíram-se com a entrada de Erundina e de José Serra (PSDB). Erundina manteve os votos por identificação, Serra por oposição e Pitta correu sozinho no quesito expectativa, que é o que vem prevalecendo, explica.
Guilhon ressalta que os tucanos revelam uma crise de identidade. Numa escala de 1 a 7, que vai da esquerda para a direita, os eleitores do PSDB identificam o partido um pouco à esquerda, entre os números 5 e 6. A esquerda é o lugar do PT, enfatiza. Se o discurso de FHC tivesse sido de esquerda ele poderia ter perdido para Lula, mas ele se aliou à direita e ganhou a eleição.


