Brasil tenta isolar pressão dos EUA
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sábado, 04 de outubro de 1997
Agência Estado Brasília 
A viagem do presidente Fernando Henrique Cardoso ao Chile na semana passada serviu para ensaiar a estratégia da diplomacia brasileira contra a pressão americana para liberar o comércio no continente. Por trás dos discursos do presidente em Santiago estava a decisão do governo de usar todas as oportunidades diplomáticas para pôr em segundo plano a discussão comercial e chamar a atenção para questões sociais. Fernando Henrique quer que a educação, e não o comércio, seja o principal ponto da agenda diplomática dos países da América.
A discussão no continente não pode ser monopolizada pela questão comercial e tarifária, resume o diretor do departamento das Américas do Ministério das Relações Exteriores, Luís Augusto de Castro Neves. Nós esperamos, com apoio de vários chefes de Estado, que, na próxima Cúpula das Américas, em 98, em Santiago, a educação seja um ponto prioritário da pauta. Entre os chefes de Estado citados por Castro Neves, o governo inclui agora Eduardo Frei, do Chile.
Os diplomatas brasileiros comemoraram as declarações de Frei, em apoio às críticas de Fernando Henrique à pressa dos Estados Unidos na criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Ajudado pela resistência do Congresso norte-americano em dar maior autoridade ao presidente Bill Clinton para fazer acordos comerciais, Fernando Henrique também pretende evitar que o assunto Alca apareça com destaque na agenda da visita do presidente dos Estados Unidos ao Brasil, a partir do dia 13. Se depender do governo, o ponto alto da visita será a assinatura de uma acordo de cooperação entre os dois países na área de educação.
Segundo um integrante da comitiva do presidente ao Chile, o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, discutiu com autoridades chilenas na área educacional as propostas brasileiras de criação de métodos comuns de avaliação para os países do continente. O governo brasileiro apóia a criação de metas e programas interamericanos para avaliar o aprendizado no ensino básico e identificar a capacidade dos alunos no final dos cursos.
Os países que mais investiram em educação são os que mais estão colhendo os frutos benéficos da globalização, argumenta Castro Neves. A educação é um dos aspectos prioritários, é onde a cooperação hemisférica pode dar mais frutos, comentou. Para os diplomatas, a ênfase na discussão da Alca é um viés indesejado que não estaria previsto na primeira reunião de cúpula das Américas, em Miami, há três anos.
A estratégia montada pelo governo torna compreensível o pequeno destaque dado, durante a visita do presidente Fernando Henrique, à crescente aproximação econômica entre o Chile e o Brasil. Os investimentos chilenos no Brasil, que não chegaram a US$ 200 milhões entre 1990 e 1995, saltaram para US$ 1,3 bilhão no ano passado, principalmente com a participação de empresas como a Chilectra no programa de privatização.
Para os diplomatas brasileiros, embora o Chile mantenha sua política de alianças comerciais com diversos blocos econômicos no cenário internacional, o governo de Eduardo Frei tem mostrado crescente interesse na integração com os países da América Latina. Contribuiu para isso a liberalização das economias no continente e o protecionismo comercial dos Estados Unidos.


