Arquivo FolhaEu acuso!Sarney: Estados Unidos estão por trás da oposição da Argentina à inclusão do Brasil no Conselho de SegurançaA candidatura do Brasil a um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) transformou-se no tema principal da reunião do Grupo do Rio, que reunirá 14 chefes de Estado no fim de semana, em Assunção, no Paraguai. Depois do mal-estar produzido pelas declarações do presidente argentino, Carlos Menem, contrário à pretensão do Brasil, o governo brasileiro tenta evitar que a questão ganhe uma dimensão que possa prejudicar as relações entre os dois países e o Mercosul. ‘‘Esta é uma situação em que todos os dois países devem sair ganhando’’, disse ontem o presidente Fernando Henrique.
No Senado, o ex-presidente da República José Sarney (PMDB-AP) denunciou que os Estados Unidos estão desenvolvendo ações para tornar o Mercosul instável. Como presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Sarney disse que o governo brasileiro não pode fazer essas declarações, mas que ele não apenas pode como deve denunciar essa manobra. A principal ação dos Estados Unidos, segundo Sarney, é a de influir na decisão de Menem de se opôr à intenção do Brasil de ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança.
Sarney afirmou que o governo dos Estados Unidos, não o povo, já conseguiu alcançar seu objetivo de lançar a discórdia na região. Ele acusou o presidente da Argentina de servir como instrumento dessa movimentação: ‘‘Menem está sendo usado como instrumento desse ato lamentável’’, afirmou. Para o ex-presidente, o que está em jogo é a unidade do Cone Sul. ‘‘É o projeto da comunidade latino-americana presente no mundo pela sua força e determinação de seus povos’’.
Decepção Para Sarney, seria decepcionante constatar que por trás de toda a movimentação estivesse um acerto diplomático dos americanos que asseguraria a venda de aviões de última geração para o Chile; a escolha da Argentina como membro não-participante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), e o cargo da ONU para o Brasil. ‘‘Nesse caso, o jogo do presidente Menem é de cartas marcadas, e o nosso, de enganados’’, afirmou. ‘‘Esse fogo de artifícios de mau gosto, se é sério, deve ser repelido; se é jogo combinado, é desmoralizante para o Brasil’’. O senador argumentou que o Brasil deve enfrentar as dificuldades e cobrar explicações dos Estados Unidos.
Sarney acredita que a intenção norte-americana é de ‘‘desestabilizar o Mercosul por um caminho mais condenável, o da quebra do equilíbrio estratégico da região, com sérias implicações’’. Ele citou três decisões do governo norte-americano que confirmam suas suspeitas: levantar o embargo de vendas de armas para a América do Sul, imposto pelo ex-presidente Jimmy Carter há 20 anos; autorizar a venda de aviões de última geração para o Chile, e considerar a Argentina aliada extra-Otan. ‘‘O que está em jogo é a soberania do Brasil ameaçada pelas ações que os Estados Unidos promovem deliberadamente na região’’, constatou. Ele insistiu que tem o dever de denunciar essa manobra. ‘‘O Brasil não pode conformar-se com ela nem receber como compensação sentar-se no Conselho de Segurança da ONU’’, afirmou.

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