Além de ter de amargar a eterna posição de segundo colocado em todas as pesquisas de intenção de voto, sem que, a curto prazo, vislumbre no horizonte qualquer possibilidade de alteração do quadro, Luís Inácio Lula da Silva terá de fazer das tripas coração para se livrar de uma séria ameaça à sua intenção de vencer a disputa presidencial. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) acaba de anunciar que irá se engajar na campanha de Lula, e que sua atuação não será restrita ao simples aconselhamento a seus membros para que votem no líder do PT. O MST promete duplicar, triplicar e, se necessário, quadruplicar o número de invasões de terra para ‘‘mostrar ao País’’, como afirma um de seus líderes, Gilmar Mauro, ‘‘que o governo Fernando Henrique não está cumprindo sua promessa de realizar a reforma agrária’’.
A intenção do MST - ou de uma parcela de seus líderes - pode ser uma demonstração de generosidade para o homem que, para o movimento, representa a esperança de realização de seu projeto de distribuição de terra de maneira ágil e abrangente, mas, politicamente, pode se revelar um desastre em vez de um benefício. A diferença ideológica entre Lula e Fernando Henrique é minima teoricamente, embora na prática o segundo tenha se mostrado tão distante de suas idéias quanto o jinete atirado ao solo que vê sua montaria afastar-se a galope. Embora seja Fernando Henrique quem disponha da caneta para autorizar desapropriações, assentamentos e liberação de verbas - a mesma caneta que um dia escreveu coisas que encantaram a esquerda, embora seu manipulador tenha rogado a todos que esquecessem a sua obra - é Lula quem, mais do que ninguém, cooptou a esperança dos sem-terra por uma reforma agrária radical.
O nó górdio do apoio explícito do MST à candidatura Lula reside na turbulência que esta intenção, uma vez posta em prática, irá gerar. Além da onda de violência inerente às invasões maciças de terra prometidas pelo MST, com efeitos avassaladores sobre o ânimo de uma parcela considerável da classe média que se dispõe a votar no líder do PT, essas invasões irão roubar de Lula o apoio que eventualmente ele poderia vir a ter dos produtores rurais.
Dos pequenos aos grandes, os produtores rurais há muito superaram o limite de paciência em relação ao governo Fernando Henrique, tanto por sua política de contemporização com o MST quanto, principalmente, pela falta de uma política agrícola coerente e eficaz. A classe dos produtores rurais está prostrada e arrasta para saldar as dívidas herdadas de planos econômicos anteriores e que chegaram à estratosfera com o Real, que pôs abaixo a rentabilidade do campo. E esses produtores estão dispostos, em 4 de outubro, a dar o troco a Fernando Henrique.
A entrada em cena do MST, aumentando o ritmo das invasões de terra, poderá tirar de Lula esta fatia preciosa do eleitorado, que jamais votaria em alguém que fosse apoiado de maneira tão explícita por uma organização que ameaça interromper sua pequena, porém imprescindível, fonte de renda. A posição do MST nos remete a um bordão criado para a televisão pelo humorista Jô Soares, que, travestido de portenho estereotipado, exclamava sempre que era passado para trás: ‘‘Muy amigo... muy amigo’’.

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