Brasil On line (José Antonio Pedriali)
Brasil On line (José Antonio Pedriali)
A globalização do medo
Mais uma vez o mundo estremece com nova crise nas bolsas de valores que vitimou sobretudo a Rússia e que teve origem no impasse criado na Indonésia com o aumento das pressões para a renúncia do ditador Suharto. No ano passado, tivemos o crash mundial das bolsas, do qual só se salvou a de Nova York e cujo estopim foram os tigres asiáticos. O novo estremecimento ocorreu na segunda-feira. Ontem as bolsas mundiais voltaram a se recompor do tombo depois que o governo russo anunciou a elevação nas taxas de juros - que pasmem, superam as brasileiras, atingindo de 30 a 40% ao mês! -, mas fica a pergunta: qual será a próxima vítima?
A globalização, que está derrubando uma após outra as barreiras econômicas mundiais, é uma grande conquista, pois facilita e teoricamente barateia o acesso de qualquer um aos produtos industrializados e bens de consumo. Essa conquista, no entanto, vem encontrando mais e mais críticos, uma vez que tira postos de trabalho tanto das nações ricas quanto das emergentes, como o Brasil, México e outros países com economia em ascensão.
Ao tornar cada vez mais interdependente o comércio e, consequentemente, acirrando a competição internacional, a globalização facilita a conquista de novos mercados pelas transnacionais e aumenta a distância entre os países ricos e pobres. E, ao fazer tão interdependentes os mercados, torna-os reféns das economias instáveis, disseminando a crise como um rastilho de pólvora. O que acontecerá com o Brasil ou os Estados Unidos amanhã se, por exemplo, ocorrer uma queda nas bolsas de Cingapura ou da Malásia ou do México ou da Argentina? Não sabemos, mas, de qualquer forma, podemos esperar o pior. E quando esperamos o pior, é porque temos medo. A economia se globalizou e, com ela, globalizou-se o medo.
Neste momento em que chefes de Estado e de governo dos países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) estão reunidos em Genebra, a globalização é um dos temas da agenda de discussões. Mas os líderes mundiais darão prioridade, neste encontro, à definição de fórmulas que aperfeiçoem e facilitem o comércio mundial, debruçando-se principalmente sobre as barreiras comerciais impostas por muitos dos países-membros da OMC. Os Estados Unidos, arautos da abertura dos mercados e os principais beneficiários da globalização, são, contraditoriamente, o país que mais restringe a entrada de produtos estrangeiros e o que mais subsidia os de origem nacional.
Como operacionalizar a globalização é um tema intrigante, complexo e necessário, sem dúvida, mas os líderes mundiais poderiam utilizar esse foro de discussão para debater também suas consequências nefastas e encontrar mecanismos que amortizassem o seu impacto. O protesto de ativistas na véspera da abertura da reunião da OMC, que gerou depredação de automóveis e estabelecimentos comerciais e confrontos com a polícia, é um indicador de que os privilegiados habitantes dos países ricos - e a Suíça é o paradigma da estabilidade monetária combinada com o crescimento econômico - também estão sofrendo as consequências negativas da globalização. Lá, perdem-se empregos, porque muitas indústrias transferem-se para os países emergentes; aqui, essas indústrias criam postos de trabalho que, no entanto, não conseguem, nem de longe, compensar as dispensas de funcionários promovidas pelas empresas nacionais, cujos produtos perdem competitividade diante dos importados.
O impasse está criado. O presidente Fernando Henrique Cardoso declarou, em Genebra, que é preciso corrigir os rumos da globalização para atenuar seu impacto social. Muito bem. Que seu discurso produza efeitos concretos que sirvam de exemplo para alguns dirigentes mundiais, liderados por Tony Blair, primeiro-ministro britânico, que organizam uma reunião para discutir o que se convencionou chamar de Terceira Via. Se não for possível globalizar a riqueza, utopia das utopias, que pelo menos se evite a globalização da pobreza.





