Brasil On line (Jose Antonio Pedriali)
Brasil On line (Jose Antonio Pedriali)
A Indonésia não é aqui. Ainda
Para decepção de Lula, Brizola, Arraes e outros, a Indonésia não é aqui. Os opositores vislumbraram no conflito social latente provocado pela seca do Nordeste como o possível estopim que deflagraria uma comoção nacional capaz de reverter a tendência de um provável segundo mandato para Fernando Henrique Cardoso. As consequências da seca nordestina são gravíssimas, mas localizadas, e os saques a supermercados, mercearias e quitandas não podem ser comparados ao furor incontrolável que tomou conta da população indonésia.
Para decepção de Lula e outros, Fernando Henrique não é Suharto. Nosso presidente está caminhando para o último semestre de seu mandato de quatro anos, busca a reeleição e, embora alguns de seus familiares ocupem cargos de destaque em empresas recém-privatizadas, mesmo em crise de delirium tremis seus opositores não se atreveriam a acusá-lo de corrupto.
Suharto é um dos últimos titulares do panteão dos ditadores longevos, acaba de inaugurar seu sétimo mandato consecutivo, eleito indiretamente por um Parlamento formado na maioria esmagadora por seus apadrinhados, e ficou muito, muito rico em mais de três décadas no poder. Sua fortuna é avaliada em dezenas de bilhões de dólares e os filhos são proprietários ou sócios das maiores empresas do país.
Para decepção de Fernando Henrique, a enorme distância física e política que nos separa da Indonésia não é suficiente para constituir uma barreira intransponível que impeça que aqui ocorram conflitos, com desfecho imprevisível - e quase sempre traumáticos -, como estão acontecendo lá. A crise econômica que deflagrou o impasse político para Suharto, que está buscando apenas garantias para a sua renúncia inevitável, tem praticamente as mesmas características estruturais da economia brasileira.
A Indonésia, integrante da segunda geração dos tigres asiáticos, baseou seu rápido crescimento econômico - assim como a maioria dos países da região -, iniciado nos anos 80, num colossal endividamento público, necessário para financiar as exportações, base da expansão de sua economia. A crise das bolsas no ano passado, que teve a Ásia e os tigres como epicentro, foi o desdobramento natural desse crescimento insustentado. O Japão, principal financiador dos tigres, já vinha desacelerando sua economia para conter o endividamento estatal e, com a crise dos vizinhos, enfrenta a ameaça de uma recessão prolongada. A China, a gigante, toma medidas para não sucumbir aos inevitáveis reflexos da bancarrota dos tigres.
O Plano Real nos trouxe a estabilidade monetária, uma grande conquista, é preciso reconhecer, mas os outros indicadores da atividade econômica emitem sinais de alerta. O crescimento do PIB, que deverá atingir este ano 3%, na melhor das hipóteses, não acompanhará sequer o crescimento demográfico. A crise das bolsas passou por nós como um furacão, derrubou árvores e casas, e seus estragos só não foram maiores porque o governo elevou as taxas de juros à estratosfera. Mantivemos, assim, a confiança do investidor estrangeiro mas, em compensação, a dívida pública ultrapassou os limites do tolerável e está se transformando numa armadilha que poderá ser fatal.
Fatal não agora, a ponto de ameaçar os planos reeleitorais de Fernando Henrique, mas a armadilha poderá ser acionada no início do seu provável segundo mandato, quando não mais teremos condições de continuar subvencionando o capital volátil das bolsas. E então, com os empresários no limite da tolerância, os funcionários públicos começando a perder seus empregos em consequência da reforma administrativa, os trabalhadores privados indefesos diante do desemprego crescente, e o desemprego fazendo mais e mais vítimas, não restará ao governo senão a alternativa de obter mais recursos para financiar seu déficit. E como obtê-los? Elevando as tarifas públicas e adotando outras medidas impopulares.
O declínio de Suharto começou assim.





