Brasil On line (Jose Antonio Pedriali)
Brasil On line (Jose Antonio Pedriali)
O pequeno grande general
Ele é baixinho, flaquito (magrinho), com traços indígenas evidentes apesar da predominância da ascendência espanhola. É gentil com os amigos, mas se comporta como um leão diante de seus adversários. Sua cultura humanística é limitada; sua formação militar é rigorosa e ampla. No terreno político, que ele começou a trilhar há poucos anos, o que parecia obra de um bufão obedecia a uma criteriosa estratégia de marketing. E essa estratégia deu certo: o general de reserva Lino Oviedo transformou-se no homem público de maior popularidade no Paraguai, e sua imagem não se limita apenas à de um político bem-sucedido: ele é visto como um herói e essa aura se consolidou com sua prisão e tem tudo para aumentar ainda mais quando ele for libertado.
Lino Oviedo é um fenômeno. Sua prisão, decretada por um tribunal militar manipulado pelo presidente Juan Carlos Wasmosy, foi o que tornou possível a vitória no domingo de Raul Cubas Grau, do Partido Colorado. Ironia das ironias: os colorados quase se mataram durante e após as prévias do partido, em setembro do ano passado, para tirar Oviedo da disputa presidencial, levaram-no à prisão e, para não permitir a vitória da oposição, basearam sua campanha na promessa de libertação do general.
Esse racha dos colorados, partido maioritário e com mais de um século de existência - assim como os liberais, de oposição, hoje liderados por Domingo Laino - consagrou a liderança de Oviedo e jogou por terra a esperança de uma sobrevida política para Wasmosy. O presidente paraguaio está no fundo do poço (aquele local onde todos os pecadores parecem se encontrar antes de se converter a alguma seita evangélica...), abatido por um governo mal planejado, mal conduzido, corrupto, visceralmente corrupto e que contribuiu decisivamente, por sua inércia ou atos desastrosos, para o agravamento da crise econômica paraguaia.
Se Wasmosy está no fundo do poço, Oviedo está no céu, apesar de ainda continuar preso na Primeira Divisão de Infantaria do Exército, para onde foi enviado há três meses. Não importa. Ele sairá, mais cedo ou mais tarde, e será a glória máxima. Pois todo herói só é verdadeiramente herói se sofrer injustiças, se for incompreendido, se for caluniado. A prisão de Oviedo é interpretada pelos paraguaios como o purgatório de um general ousado, aguerrido, e ela contribuirá - pensam eles - para a expiação de seus eventuais pecados e consolidação de suas virtudes. Que, para eles, são imensas, quase infinitas.Mística
Para se compreender a mística que envolve a figura de Lino Oviedo é preciso se deter um pouco sobre a psicologia e o caráter dos paraguaios. O Paraguai é a única nação oficialmente bilíngue da América Latina e o uso corrente do guarani revela o apego da nação às suas origens indígenas. Apego e orgulho, pois o guarani não se expressa apenas no idioma, mas nos costumes, na comida, na literatura e na música. A guarânia, aliás, foi desenvolvida pelos indígenas que, no séculos 17 e 18, tiveram a fortuna de conviver com os missionários jesuítas que realizaram, no período colonial, a maior obra pastoral e cultural da Igreja Católica em nosso continente.
Culto ao passado
O apelo ao passado convive com o dia-a-dia dos paraguaios e tornou-se um culto. A Guerra da Tríplice Aliança, que nós batizamos de Guerra do Paraguai, entronizou Solano Lopez na galeria dos heróis nacionais. A Guerra do Chaco consagrou o Marechal Estigarribia. Alfredo Stroessner é hoje repudiado, mas 20 anos atrás era idolatrado por uma grande parcela da população (a História, um dia, poderá convertê-lo em tirano ou venerá-lo como mártir...).
O culto aos líderes é uma necessidade, pois os paraguaios reconhecem que se a índole coletiva da Nação é capaz de produzir soldados e mulheres destemidos como foram seus antepassados nas duas maiores guerras do país, a índole individual é frágil. Frágil e volúvel. E quanto mais frágeis os integrantes de uma Nação, mais ela necessita de homens de valor e de generais destemidos para que possa cultuá-los como seus heróis e expurgar, por meio deles, seus medos e angústias.Granada nas mãos
Lino Oviedo, um opaco oficial da Cavalaria, tornou-se célebre ao obter a rendição de Stroessner, durante o golpe que o depôs em 1989, tirá-lo do quartel da guarda presidencial e conduzi-lo ao aeroporto de onde o general partiria rumo a seu exílio que dura mais de nove anos. Oviedo rendeu Stroessner entrando sozinho no quartel, com uma granada em cada mão. Desde então, sua fama só fez crescer. Oviedo tornou-se a eminência parda do governo de Andrés Rodriguez, sucessor de Stroessner, e manobrou junto aos colorados para que Wasmosy fosse o candidato do partido em 1993 e, finalmente, o vencedor das eleições presidenciais. No governo de Wasmosy, porém, houve um choque de personalidades e a falta de escrúpulos do presidente em envolver negócios de Estado com seus negócios particulares foi a gota dágua para o rompimento final dos dois.
Fazendo a História
Ao apontar a cumplicidade do presidente com a corrupção institucional - que, aliás, caracteriza o governo dos colorados há mais de 50 anos -, Oviedo ganhou a simpatia da maioria da população, que viu nele o homem capaz de, por fim, endireitar os rumos tortuosos do país. Oviedo, então comandante do Primeiro Corpo do Exército, a unidade mais poderosa das Forças Armadas, venceu esta batalha. Se antes era a esperança de dias melhores, ele incorporou e catalisou esse desejo coletivo.
A galeria dos heróis paraguaios está recebendo seu mais recente membro. Oviedo não pertence à História, está fazendo a História e, quando recuperar a liberdade, será quem verdadeiramente irá mandar no governo. Agora e possivelmente por muitos anos.





