Uma missa, uma homenagem no Congresso. E assim se encerram os rituais em memória de Luís Eduardo Magalhães que a morte, implacável, impediu realizasse o que já estava escrito nas estrelas, a conquista da Presidência da República. Foi-se um líder, outros virão - talvez maiores, oxalá maiores.
O vazio deixado por Luís Eduardo na liderança da Câmara durou o tempo que dura a maioria dos vazios. Uma semana depois de seu passamento e sua vaga já está preenchida por Inocêncio de Oliveira, que não tem o mesmo carisma e o mesmo brilho do antecessor, mas é um líder articulado e respeitado e que já deu mostras de sobra de seu poder aglutinador sobre a tropa sempre dispersa do que se convencionou chamar de base aliada.
Findo o luto - que para ACM e a família de Luís Eduardo será eterno - Brasília e o Brasil retomam a vida. Ontem foi um dia atípico na Capital Federal, pois a agenda política começou com uma missa, que precedeu uma reunião do presidente, seus ministros e líderes no Congresso e terminou com as homenagens do Legislativo a Luís Eduardo e com a determinação de levar adiante o processo das reformas.
O dia começou com uma missa, e isto poderia servir de pauta para alguém convencer o presidente, seus ministros e líderes - e também a oposição - a abrirem sua agenda diária com algum ato religioso. Pois, apesar de nosso presidente ser confessadamente ateu, recorrer a Deus para que ilumine o dia-a-dia nosso e de nossos políticos seria uma atitude mais que sensata.
O luto, que se estendeu a outra perda, a do ministro Sérgio Motta, pelo menos serviu para algo: fez com que os políticos, incluindo o presidente e o todo-poderoso ACM, se transfigurassem em seres humanos. Condição, aliás, que raramente identificamos neles, pois mal conquistam o poder e parecem incorporar alguma divindade, tornam-se duros, inacessíveis, intocáveis e nos olham e nos tratam com desdém olímpico.
E o que vimos na inesquecível e traumática semana passada? Que os deuses também sofrem, que os deuses também choram. Tivemos cenas dantescas de dor quando ACM, ao saber da morte do filho, sentenciou ter perdido sua própria vida e buscava, sem que jamais virá encontrar, uma explicação por que aquilo havia acontecido com seu filho e não com ele. Tivemos cenas de profunda ternura paternal quando ACM acariciava sem cessar o rosto do filho. Dor, muita dor, que contagiou nosso presidente tão racional a ponto de fazê-lo cancelar uma viagem oficial à Espanha para confortar ACM e também acariciar o rosto de Luís Eduardo.
Eureca: os políticos também morrem e também sofrem quando perdem um ente querido. E isto, se não nos comove, pelo menos nos consola. Mas ficaríamos ainda mais consolados se eles também se enlutassem quando algum de nós é vítima de uma tragédia - e quantos não somos essas vítimas anônimas, individuais ou coletivas? Que eles chorassem e nos consolassem quando perdemos nossos empregos e que se unissem a nós para que não mais faltassem empregos. Que eles descessem dos céus para compartilhar de nosso cotidiano árduo. Que nos estendessem as mãos quando tivéssemos fome e sede, como agora no Nordeste onde centenas de milhares de pessoas estão à míngua, vitimadas por mais uma seca cíclica.
Enquanto isto não acontece, continuemos de luto. E oficiemos todos os dias o Réquiem para os vivos.

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