Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
Não tivemos a comoção que acompanhou a morte de Tancredo Neves e, em escala menor, a de Ulysses Guimarães, mas a morte de Luís Eduardo Magalhães, surpreendente porque vitimou um jovem de carreira brilhante e futuro auspicioso, nos arremessa mais uma vez para aquela zona cinzenta da emoção e da dor. Luís Eduardo era o jovem vitorioso que iniciou a carreira política sob o manto protetor do pai, o senador Antônio Carlos Magalhães, mas logo adquiriu força própria e, com seu carisma e lealdade para com aliados e adversários, tornou-se um dos maiores líderes da história do Legislativo.
A morte de Luís Eduardo no terreno da política é um desastre, em curto e talvez médio prazos, para o governo Fernando Henrique, e uma tragédia pessoal de dimensões incalculáveis para seu pai, o todo-poderoso ACM. Luís Eduardo era a obra-prima que ACM lapidou e que ganhou vida, tornando-se maior que o criador. Do pai, que o introduziu na atividade política, ele herdara a tenacidade e o espírito de liderança e da mãe, dona Arlete, o espírito de conciliação, acrescentando a esses dotes seu brilho pessoal e um talento raro na arte da articulação. O governo Fernando Henrique perdeu um aliado valiosíssimo, mas poderá se recuperar com o tempo. ACM jamais, pois como ele declarou ao ser informado da morte do filho, perdi a minha vida.
Junto com Luís Eduardo, morreu a esperança de o PFL vencer com facilidade as eleições presidenciais de 2002. Nada mais traiçoeiro que o tempo para frustrar expectativas e projetos, mas Luís Eduardo tinha o perfil ideal do sucessor de Fernando Henrique Cardoso - caso as eleições de outubro lhe sejam favoráveis - e sua provável vitória para o governo da Bahia lhe daria um handicap invejável. Podemos dizer, portanto (e quanta temeridade há nesta frase), que em 21 de abril de 1998 perdemos o presidente que tomaria posse em 1º de janeiro de 2003.
A morte de Luís Eduardo pode não ter nos comovido tanto como a de Tancredo e de Ulysses, e não tem a mesma dimensão que a perda desses dois líderes, mas, guardadas as devidas proporções, é um capítulo a mais na longa história de tragédias que marcaram nossa recente vida republicana.
Tragédias que nos acompanham desde que Getúlio pôs fim à sua vida, num momento em que o Brasil passava por profundas transformações políticas, culturais e econômicas. O gesto tresloucado, que foi a renúncia de Jânio Quadros oito meses após assumir a presidência, foi a antecâmara, o primeiro ato que redundaria em 21 longos anos de regime militar, regime que simbolicamente se encerrou com outra tragédia: a morte de Tancredo Neves, eleito indiretamente, sim, mas que encarnava o anseio de restauração plena da democracia. Cinco anos depois, quando votamos pela primeira vez para eleger o presidente, tinha início outra tragédia, que foi a traição da esperança nacional e que redundou na renúncia de Collor de Mello.
As nações se fazem por meio de seus líderes e por sua população - e quantos heróis anônimos há entre nós, que são vítimas de tragédias imensas, todos os dias, sem que nos ocupemos deles e muito menos nos sensibilizemos com eles? A tragédia cotidiana de milhões de miseráveis é expressa por frias estatísticas e, talvez por nossa índole conciliadora, jamais imitemos, no campo político, o exemplo de outros povos, como - e este é o mais clássico - fizeram os franceses ao se unir para dar o basta definitivo ao Antigo Regime.
De tragédia em tragédia, no entanto, crescemos. Pois as nações poderosas são aquelas forjadas pela dor.





