O rei está morto. Viva o rei! Com a morte de Sérgio Motta, surge a dúvida: Juarez Quadros, atual interino do Ministério das Comunicações, será confirmado no cargo ou Fernando Henrique irá nomear outra pessoa para a função? Navegando na incerteza, o deputado federal Abelardo Lupion (PFL-PR) aproveita a oportunidade para lançar para a vaga de Motta o paranaense Fernando Xavier, presidente da Telebrás e que acumula a presidência da Telesp.
Só depoisEles tiveram em comum o fato de morrer praticamente ao mesmo tempo. Duvido que Nelson Gonçalves desse alguma importância aos arroubos de Sérgio Motta e que o mexicano Octavio Paz estivesse sintonizado com o programa de privatização da telefonia brasileira, mas Motta com certeza algum dia se emocionou com as músicas de Gonçalves. E se Octavio Paz nunca se deleitou com as melodias chorosas do nosso ‘‘último romântico’’, se as ouvisse as admiraria, porque era um artista e todo artista se encanta com a música, principalmente se ela for bem interpretada. E poucos como Nelson Gonçalves souberam, por intermédio da música, atingir nossos sentimentos.
O ‘‘ultimo romântico’’ parte sem deixar sucessor à vista e muito menos à altura. Com Nelson Gonçalves fecha-se um ciclo da música popular que teve, no Brasil, expoentes como Orlando Silva e Carlos Galhardo, e na América Latina, Carlos Gardel. Gonçalves e Gardel tinham, além da voz grave e entonação perfeita, o dom de nos incutir a tristeza, mesmo que não tivéssemos motivo para isso. ‘‘A media luz’’, de Gardel, e ‘‘Boêmia’’, de Gonçalves nos transportam para outro mundo, ou para o submundo que carregamos dentro de nós, aquele lado obscuro de nossas vidas que em momentos de emoção forte - e ninguém como eles para provocar essa emoção - vem à tona, queiramos ou não.
A morte de Sérgio Motta priva o governo Fernando Henrique Cardoso de seu personagem mais vistoso, o mais falastrão, o mais sincero, o mais contundente. Seus comentários, dependendo de nossas inclinações políticas, poderiam nos divertir ou indignar, mas dificilmente poderíamos contestá-los.
O brilho e a força de Motta, porém, não se limitavam a suas aparições públicas - eles se expressavam sobretudo nos compartimentos escuros do poder. Pois era nesses compartimentos inacessíveis à maioria esmagadora da Nação que Motta se revelava um exímio articulador, conseguindo apoios, neutralizando adversários, levando adiante seu plano de manter na Presidência por mais quatro anos seu amigo, confidente e sócio Fernando Henrique.
E Motta não fazia isso apenas para beneficiar o amigo - os dois compartilhavam do mesmo ideal de renovação do Estado brasileiro, projeto que, para Motta, só poderia chegar a bom termo se estivesse sob o comando de FHC.
Com a morte de Octavio Paz, a América Latina perde seu maior pensador desde que Jorge Borges deixou o convívio terreno. Ambos, além do talento irretocável, tinham em comum o fato de escreverem com tanta propriedade e profundidade, com um zelo ardoroso pela forma, que somente poucos tiveram o privilégio de compreendê-los. Borges divertia-se em abordar a realidade através das metáforas; Paz, um diplomata de carreira além de poeta e escritor, analisava a realidade com a crueza que ela merece. E nunca abriu mão da defesa intransigente do liberalismo e, em consequência, jamais deixou de combater o totalitarismo, por mais inimizades que esta cruzada pudesse lhe render.
O livro mais famoso de Octavio Paz, em que ele analisa a ambiguidade do caráter do povo mexicano, poderia ser utilizado para sintetizar o estado a que ficamos reduzidos com a morte desses três homens. Pois quando perdemos homens que fizeram história, sejam cantores, poetas e escritores ou ministros e idealistas, somos conduzidos para ‘‘O Labirinto da Solidão’’.
Viva o rei!

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