Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
Ele morreu impune, e esta foi uma das maiores lacunas deste século. Pol Pot, o ex-todo-poderoso do Camboja, que passou os últimos 19 anos deambulando pela selva com seu bando de assassinos que se rotulavam guerrilheiros, morreu vítima de ataque cardíaco e, segundo alguns jornalistas que viram seu corpo, próximo à fronteira com a Tailândia, suas feições revelavam serenidade.
Não é a primeira vez que se noticia a morte de Pol Pot, mas, agora, pelo menos há um corpo e este corpo foi reconhecido por jornalistas. Mas a dúvida persistirá até que se comprove cientificamente que se trata mesmo do ex-chefe do Khmer Vermelho. Para isso, os Estados Unidos aceitaram prontamente o convite do governo cambojano para participar da autópsia do corpo de Pol Pot.
Para todos os efeitos - e até prova em contrário - Pol Pot está morto. E, com Pol Pot, morreu a esperança dos sobreviventes do genocídio que ele um dia comandou de que fosse feita justiça. E a justiça, neste caso, clamava - e continua a clamar, embora o réu não possa mais responder por seus crimes - por uma punição exemplar. A longa permanência na selva, sem rumo, sem destino, sem a menor chance de um dia voltar a governar, foi, sem dúvida, uma punição. Mas não foi nada, absolutamente nada diante do genocídio de cerca de 2 milhões de pessoas.
Genocídio do qual Pol Pot é comprovadamente o responsável, seja devido às execuções dos que discordavam de sua concepção delirante da sociedade, seja em consequência das incrivelmente desumanas condições dos campos de trabalhos forçados - os campos da morte -, em que Pol Pot transformou praticamente todo o país. No governo de Pol Pot, que durou quatro anos, de 1975 a 1979, 20% da população sucumbiu.
Cronologicamente, Pol Pot foi o último dos genocidas deste século, categoria que teve em Stálin, Hitler e Mao Tsé-Tung seus expoentes. Nenhum dos quatro foi julgado por seus crimes. Stálin morreu quando o hoje extinto império soviético estava em seu apogeu, em termos territoriais, militares e geopolíticos; Mao havia consolidado a sua obra, da qual, no entanto, pouco restou após as mudanças introduzidas pelos novos dirigentes chineses. Quanto a Hitler podemos ter pelo menos o consolo de que ele sofreu, e muito, ao constatar que o Terceiro Reich virara pó, e esta dor, associada a outras dores - e nada mais doloroso que a destruição de um sonho - o induziu ao gesto extremo de dar fim à própria vida e à da mulher amada, Eva Braun.
Quanto a Pol Pot, o mundo se omitiu. E se omitiu quando se tornou pública a tragédia que se abateu sobre a população cambojana com a tomada de poder por Pol Pot e seus fanáticos seguidores do Khmer Vermelho. E se omitiu novamente ao não mover uma palha para caçá-lo, fosse onde fosse, após a deposição de seu regime provocado pela invasão do Camboja pelo Vietnã, que agiu mais por interesse estratégico que por razões humanitárias.
Como atenuante, podemos citar o trauma, ainda recente quando Pol Pot tomou o poder, que a guerra do Vietnã produzira nos países ocidentais, sobretudo nos Estados Unidos. Mas e depois, quando ele e seu exército brancaleone se refugiaram na selva, por que nada se fez?





