Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
Mas ele está de volta, para adicionar um complicador a mais na já complicada vida nacional. Mesmo que não consiga concorrer a cargo nenhum, sua presença em território nacional é um acinte à consciência dos homens de bem e uma cusparada na cara da Justiça que, por enquanto, só conseguiu ter êxito parcial no processo movido contra Collor por sonegação de imposto.
A volta de Collor, com plena liberdade de ir e vir, fazer o que bem entender e dizer o que lhe convier deveria nos collorir de vergonha. Olhássemos um pouco além de nossas fronteiras e constataríamos que perdemos uma excelente oportunidade de, através da punição de Collor, ter resgatado boa parte do prestígio da Justiça e da imagem corroída dos demais Poderes. E nem precisaríamos ir muito longe: ali em cima, na Venezuela, o ex-presidente Carlos Andrés Pérez, que foi cassado em 1993 por motivos semelhantes aos de Collor, já esteve atrás das grades, já ficou meses e meses em prisão domiciliar e, ontem, teve de iniciar o cumprimento de nova pena de prisão domiciliar.
Andrés Pérez perdeu o mandato e os direitos políticos porque ficou comprovado que desviou recursos de um fundo secreto para sua conta particular no exterior. Coisa assim de 200, 300 mil dólares. Pois bem, só por sonegação de imposto de renda, Collor foi condenado a pagar R$ 1 milhão de reais de multa.
Mas a Venezuela é a Venezuela, paiseco subdesenvolvido...
Na geladeiraEle está de volta. O ex-presidente Fernando Collor de Mello desembarca hoje em Maceió com a disposição de desafiar a Justiça e lançar-se candidato à Presidência da República (desafiar a Justiça, aliás, é sua especialidade). Collor se baseia em decisão de um juiz de Maceió, que lhe restituiu os direitos políticos, cassados em consequência do processo de impeachment que enfrentou.
Collor é realmente um artista, um exímio malabarista de frases, gestos e atos e, mais uma vez, irá recorrer à pantomima para conquistar seu objetivo. A Presidência da República, sua meta pública, pode ser apenas um recurso de retórica e uma estratégia política, pois o ex-presidente irá esbarrar na solidez do Supremo Tribunal Federal que recusou vários recursos apresentados por Collor para reaver seus direitos e disputar uma eleição.
As rádios da família Collor de Mello já vêm tocando há várias semanas um jingle destinado a alavancar as pretensões políticas do ex-presidente. Vamos collorir é o título do jingle, ao ritmo do frevo, que deverá ser tocado hoje à exaustão para saudar o retorno à sua terra natal de um dos mais notórios exilados voluntários que o Brasil já possuiu.
Maceió poderá fazer festa, pois lá a popularidade do ex-presidente é imensa, mas o Brasil deveria decretar uma semana de luto fechado. Por ter gente que ainda admire um ex-presidente comprovadamente corrupto, mentiroso e sem escrúpulos e por ter de volta em seu território justamente esse ex-presidente corrupto, mentiroso e sem escrúpulos. Miami estava na medida certa para Collor: belas praias, gente bonita, carrões, diversões mil - o que mais um milionário poderia querer para desfrutar sua dolce vita?





