Brasil On Line (José Antonio Pedriali)

Cara-pálida entende
‘‘Governo tem dinheiro, governo tem helicóptero, governo apaga fogo’’. A lógica linear de Davi Ianomami, líder de uma das aldeias de Baixo Mucajaí (IstoÉ desta semana), pode até nos induzir ao sorriso, mas, diante das circunstâncias a que se aplica - a catástrofe que se alastra pelo Estado de Roraima - deveria nos conduzir ao pranto (se sensibilidade ainda tivéssemos para isso). Como questionar tal argumento, apesar de ele ter partido de um índio e, portanto, de um ser inferior, analfabeto ou quase, que vive nos cafundós do Judas?
Mas índio como Davi já não se contenta mais com apito, índio quer ação, quer governo trabalhando, quer governo governando. Cara-pálida não entende raciocínio de índio, pois o que tem a ver o governo com as labaredas que consomem Roraima?
A esta altura do campeonato, é dispensável dizer que o governo demorou para perceber a extensão do incêndio em Roraima. Apesar da Agência Nacional de Informações, dos serviços de inteligência do Exército, dos satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - que, aliás, alertou os órgãos competentes já em dezembro de que a tragédia poderia ocorrer - o governo que ‘‘tem dinheiro’’, o governo que ‘‘tem helicóptero’’, pois é, esse governo não conseguiu apagar o fogo.
É compreensível, portanto, a perplexidade demonstrada pelo líder ianomami que, em sua lógica, simples porém irretocável, não consegue compreender como o governo não foi capaz de apagar o incêndio. Mas, cá ente nós, essa perplexidade é coisa de índio, para quem, em seu estado primitivo, o sim é sim, o não é não. Nós, brancos, civilizados, culturalmente superiores, não nos afligimos com coisas tão corriqueiras. Estamos acostumados às sutilezas, aos meios termos e aos meios tons. Por que o branco tem que ser branco e o preto, preto, se existe o cinza para atenuar as diferenças entre cores tão opostas?
Índio não entende, mas cara-pálida entende: governo não é só para governar, governo também é para tocar apito. Índio quer apagar fogo, governo quer apito. Governo toca apito e diz que inflação ó, bau bau, nunca mais, não. Governo toca apito e diz que desemprego é ficção, trabalho não falta, não. Governo toca apito e diz que saúde vai muito bem, mas muita gente morre em fila de hospital, dengue avança, tuberculose volta. Oposição reclama e governo toca apito: dinheiro da CPMF não é desviado não. Mas cadê dinheiro, saúde não viu não. Governo toca apito e diz que educação melhorou, criança nenhuma está sem vaga, mas criança vai à escola e não tem merenda. Cadê merenda? Malan comeu.
Índio quer bombeiro, governo toca apito: aqui na Amazônia não entra gringo não. General Touro-sentado-na-brasa diz que ONU não precisa ajudar, que Exército sozinho as chamas pode apagar. Mas engraçado, pergunta índio burro, por que primeiros bombeiros que chegaram aqui foram da Argentina e da Venezuela. Por que bombeiro do Brasil - onde fica Brasil mesmo? - só chegou depois? Bombeiro brasileiro é gringo e índio véio e burro tá na Argentina e Venezuela e branco esperto não avisou ele?
Agora, índio véio, burro e analfabeto tá mais confuso ainda. Funai, que sempre protegeu índio ianomami, não confia mais em índio ianomami. Então por que vai trazer pajé caiapó para dançar dança da chuva e fazer chover na floresta ianomami e apagar fogo que queima floresta ianomami?
Índio ianomami é burro, não entende. Cara-pálida, inteligente, entende.
Entende?

mockup