O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) tem desempenhado um papel imprescindível para a economia da América Latina, pois de seus cofres saem recursos, a serem amortizados a longo, longuíssimo prazo e a juros camaradas, para obras vitais de infra-estrutura. Pois na sessão de abertura da reunião anual do BID, ocorrida ontem na cidade colombiana de Cartagena das Índias, seu presidente, Enrique Iglesias, fez um alerta que serve para todos.
A economia do continente vai bem, os índices de crescimento são satisfatórios, a crise asiática não produziu os efeitos catastróficos que se temia, mas os países da região, alertou Iglesias, têm em comum uma falha grave, que precisa ser sanada: dão pouca ou quase nenhuma atenção para os problemas sociais.
O crescimento superior a 5% registrado na maioria dos países e a taxa de inflação mais baixa dos últimos 50 anos - de 10% anuais - atraíram, só no ano passado, 71 bilhões de dólares em capitais externos, mas, segundo Iglesias, ‘‘lamentavelmente, estas conquistas não foram acompanhadas pelos avanços esperados na área social’’.
O alerta do presidente do BID pode trazer incômodos para alguns chefes de Estado. Especialmente para o presidente Fernando Henrique Cardoso que, neste ano eleitoral decisivo, interpreta qualquer repreensão como parte da estratégia da oposição para tirar-lhe as chances de reeleição.
Fosse Lula, Brizola ou outro expoente qualquer das ‘‘oposições’’, e teríamos o porta-voz do Planalto, embaixador Sergio Amaral, desfiar mais um rosário de loas às realizações do governo, entre elas as obras que integram o programa ‘‘Brasil em Ação’’. Como a reprimenda veio do presidente do BID, e também por ela ter sido feita em caráter genérico, fez-se silêncio.
Esse desleixo do governo brasileiro para com a área social é constatado por um homem que pode ter todos os defeitos, mas não poderá jamais ser acusado de ‘‘esquerdista’’: Antonio Ermírio de Moraes, dono da holding Votorantin, com faturamento anual de R$ 4 bilhões. Pois Antonio Ermírio, em entrevista publicada ontem na ‘‘Folha de S. Paulo’’, tocou na mesma ferida de Iglesias, aconselhando o governo a ter ‘‘um orçamento mais justo’’, colocando, para isso, a saúde e a educação como suas prioridades. O País, ressaltou o empresário, gasta 2,1% do PIB com a saúde, quando a média dos países europeus (com produção muito superior à nossa, ressalte-se) aplicam nesse setor em média 7%.
Embora genérico, o alerta de Enrique Iglesias deveria induzir a um exame de consciência não somente nosso presidente, mas os chefes de Estado de todo o continente, pois, em grau maior ou menor, o processo econômico e as carências internas da região são semelhantes.
Os anos de chumbo, aqueles em que, nas décadas de 60 e 70, a política e a economia eram geridas por generais implacáveis ou por políticos sem pudor, produziram uma riqueza artificial, que desembocaram, na década seguinte, na crise da dívida externa e na estagnação econômica. Os anos 90 começaram alvissareiros, e os frutos da globalização já se fazem sentir no Mercosul e na maior integração dos países do Pacto Andino e na integração do México com a economia norte-americana através do Nafta.
E agora, que caminhamos para a formalização da Área de Livre Comércio, que pretende integrar toda a América num só bloco comercial, como poderemos sonhar com a prosperidade se milhões de miseráveis continuam à margem do processo produtivo, e sem perspectivas de um dia virem a integrá-lo?

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