A longa noite que os generais impuseram a nosso continente já faz parte do passado, e nele esperamos que permaneça para todos os séculos, mas dois generais, que tiveram participação de destaque naquele período, em medidas e escalas muito diversas, de repente emergem para a luz.
O general Augusto Pinochet entregou ontem o comando do Exército chileno e assume hoje a primeira cadeira de senador vitalício na história do país. O general reformado do Exército paraguaio Lino Oviedo, preso há mais de 60 dias num quartel de Assunção, acaba de ser condenado por um tribunal militar a 10 anos de reclusão e à ‘‘baixa desonrosa’’, acusado de ter tentado um golpe para depor o presidente Juan Carlos Wasmosy.
As semelhanças entre Pinochet e Oviedo se restringem ao posto de general, ao carisma e às mensagens messiânicas que transmitiram ao longo de suas vidas. E param aí, pois a trajetória política dos dois não pode ser comparada, já que Pinochet está em seu ocaso e Oviedo, mesmo condenado - e quem garantirá que ele cumprirá a pena em sua totalidade? - está apenas começando sua trajetória política.
Pinochet já deteve todo o poder no Chile, acumulando a chefia das Forças Armadas com a presidência da República, poder contestado no início de seu longo mandato - de 1973 a 1990 - apenas pela Igreja Católica e, no decorrer dos anos, pelos partidos políticos, sindicatos e organizações sociais que ousaram desafiar o longo braço da lei e da ordem impostas pelo general todo-poderoso. O cargo de senador vitalício, previsto na Constituição de l980 referendada por um plebiscito (plebiscito sob o regime do medo!), prolongará sua influência política até seu derradeiro suspiro.
O velho general chileno, de 82 anos, está com o corpo fragilizado, mas seu poder, mesmo quando ele nada faz, nada diz, é incontestável. E se estende das Forças Armadas, que o cultuam como verdadeiro herói nacional, à sociedade civil, pois um terço dos chilenos o venera como o maior líder deste século. Os dois terços restantes podem ter em relação a ele todo tipo de sentimento. Indiferença, jamais.
Pinochet encerrará a vida na condição de senador, e caminha para seu desfecho dividindo os sentimentos da nação. Seu passado e seu legado geram ódio, repugnância ou admiração, sentimentos que de nada adiantam: sua trajetória política está delineada.
O futuro de Oviedo, e do Paraguai por extensão, são preocupantes. Oviedo saiu do anonimato ao forçar, com uma granada em cada mão, o general Alfredo Stroessner a deixar o quartel onde se refugiara durante o golpe que pôs fim, em 1989, a seu governo de mais de 30 anos. De lá para cá, Oviedo não mais parou, até atingir o posto de comandante das Forças Armadas, promover a quartelada que ameaçou Wasmosy, em 1996, e, uma vez fora do Exército, foi indicado candidato - condição que ainda mantém - à presidência da República pelo maior partido do país, o Colorado. Se a Justiça comum não conseguir reverter a sentença da corte militar, a carreira de Oviedo estará temporariamente interrompida.
Interrompida, mas até quando? Os paraguaios já saem às ruas exigindo a libertação de Oviedo, os principais jornais do país, mesmo os que não se simpatizam com Oviedo, denunciam a ilegalidade de sua prisão e seu afastamento do processo eleitoral. Os quartéis, por enquanto, estão calmos. A sociedade civil está inquieta. Até quando permitirá a interrupção da carreira política de Oviedo?

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