Lembro-me bem dele, ao ver sua foto pela primeira vez nos jornais como líder do golpe que, em setembro de 1973, derrubou e matou o ex-presidente chileno Salvador Allende, um socialista-marxista que encarnava o sonho de toda a esquerda mundial pois, fato inédito na história, chegara ao poder não pelas armas e sim pelo voto popular. E ele, o líder do golpe, general Augusto Pinochet, debutava na mídia internacional com sua carranca de general implacável, sublimada por seus traços duros e por seus óculos de grossa armação e lentes escuras.
Lembro-me bem dele, dez anos depois, quando as ruas de Santiago lotavam de manifestantes - chegou-se a contabilizar um milhão de pessoas, um quinto da população - que não suportavam mais o regime que os subjugava, que lhes traíra a esperança, que lhes roubara a poupança, a família, os empregos, a paz e até a consciência. O entusiasmo pelo golpe se desvanecera com a política econômica liberal imposta pelos discípulos de Milton Friedman, com o aval de Pinochet, e a breve prosperidade observada após a deposição de Allende se derretera como a neve da eternamente branca cordilheira dos Andes, eternamente incorporada a Santiago.
Lembro-me bem dele, já com a fisionomia renovada embora envelhecida, à frente de suas tropas que marchavam em perfeita formação e absoluta disciplina, desdenhando os adversários, garantindo-lhes que sua força residia na legalidade, nas instituições, na consciência nacional e em seus subordinados e bem-treinados soldados, guardiães dos interesses legítimos da ‘‘chilenidad’’.
Lembro-me bem dele, dispersando os adversários com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, com os blindados, com as balas de borracha, com a já mitológica tropa de choque dos Carabineiros, as escaramuças em pleno centro da cidade, o cerco e os confrontos na periferia, sobretudo em La Victoria, expressão da pobreza e bastião da resistência. E aos poucos, mês a mês, quando novas manifestações eram realizadas durante todo aquele ano de 1983, menos e menos pessoas participavam dos protestos convocados pela oposição. Os democrata-cristãos, a principal força política do país, jogaram a toalha. Socialistas e comunistas não poderiam vencer. E quem venceu, mais uma vez, foi ele.
Lembro-me bem dele em 1987. Era tarde de um domingo cinzento e frio do outono. E ele aparecia visivelmente assustado, abraçado ao neto, explicando pela TV estatal como a perícia de seu motorista o salvara de um atentado terrorista. Ele saíra ileso, mas perdera cinco guarda-costas, na mais ousada ação de seus opositores, a Frente Patriótica Manuel Rodriguez, braço armado do Partido Comunista, que o emboscara na periferia de Santiago.
Lembro-me bem dele, nos dias seguintes, surgindo a toda hora na TV, anatemizando seus adversários, denunciando-lhes a crueldade, posando ao lado das carcaças dos automóveis de sua comitiva, ao lado das viúvas e órfãos de seus guarda-costas. E Santiago, então, assemelhava-se a Beirute, com soldados por toda parte, revistando quem quer que fosse, aprisionando quem quer que fosse, e os helicópteros patrulhando dia e noite, e os tanques patrulhando dia e noite, e dia e noite gente e mais gente fugindo, pedindo socorro, sendo ameaçada. Em represália à morte dos cinco soldados, quatro pessoas foram executadas e uma enxurrada de telefonemas apavorava quem odiasse ou fosse indiferente ou amasse Pinochet, pois a qualquer momento uma voz do outro lado da linha poderia informar que a quinta vítima poderia ser você...
Lembro-me bem dele no ano seguinte, no balcão do Palácio de La Moneda, disputando a companhia de João Paulo II, que fizera de sua visita ao Chile uma cruzada pela liberdade e pelo respeito aos direitos humanos. E a praça cheia de admiradores de Pinochet, recrutados especialmente para a ocasião, e ele saindo lentamente de seu gabinete e puxando para a sacada João Paulo II, que não queria que isso acontecesse mas não pôde safar-se do assédio. Mas de nada adiantou Pinochet posar ao lado do papa.
Lembro-me bem dele, visivelmente constrangido, ao aparecer em público pela primeira vez após a divulgação do resultado do plebiscito, em 1988, através do qual pretendia permanecer no cargo mais sete anos, e depois mais sete, e assim indefinidamente. E lembro-me das ruas de Santiago, até então tomadas pelas sombras do medo e pela névoa da desconfiança, encherem-se de luz, de alegria, de gente que, pela primeira vez em 15 anos, podia falar, cantar e bradar sem temer a eterna vigilância da polícia secreta.
Lembro-me bem dele, nos momentos de trégua de seus adversários - os que sobreviveram aos rigores do golpe - ou nos momentos em que todo o mundo apostava que seus dias estavam contados, e ele sempre resoluto, sempre firme, jamais titubeando, jamais cedendo, jamais compondo e sempre impondo. Ele assumiu o comando de um país em profunda crise - social, política, econômica e de identidade -, foi o agente da esperança para uma parcela considerável dos chilenos, correspondeu-lhes inicialmente, mas, nove anos após o golpe - em 1982 - o país estava à beira da falência.
Lembro-me bem dele rebatendo todas as críticas, depositando toda a confiança em sua jovem equipe econômica - os Chicago boys - e prometendo que a prosperidade voltaria em breve, e quando voltasse seria sólida como o cobre, o principal produto de exportação chileno. E a prosperidade, de fato, começou a ressurgir em 1986, com o saneamento das contas públicas, o enxugamento da máquina estatal, a abertura do país ao capital internacional, as privatizações em série e em massa. E 12 anos depois a prosperidade só faz crescer. Foi duro para a população, foi sim senhor, mas os resultados estão aí.
Lembro-me dele neste momento, pois é a última semana em que permanecerá no comando das Forças Armadas, cargo que assumiu assim que deixou a presidência, em 1990. No domingo, Pinochet voltará à condição de civil, que deixou há 65 anos ao ingressar no curso de cadete da Escola Militar de Santiago. Mas o poder, que abraçou a custo de muito sangue há um quarto de século, o acompanhará até a sepultura, pois ele assume no dia seguinte a cadeira de senador vitalício.
De sua obra restará a eterna dúvida: a prosperidade que deixou compensou tanto sangue e sofrimento?

mockup