Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
E eis que se fez a paz, e da paz emergiu um anjo, o secretário-geral da ONU Kofi Annan. Num mundo abalado por tantos conflitos e sob a ameaça de uma profunda recessão provocada pela crise das bolsas de valores da Ásia, nada mais alvissareiro que a notícia de que o Iraque, enfim, se curvará às resoluções da ONU. E permitirá, sem limitações, que os oito palácios presidenciais, onde se suspeita sejam fabricadas e estocadas armas químicas, biológicas e nucleares, sejam vistoriados pela Unoscom, a equipe de especialistas em armas enviadas àquele país pela ONU depois da Guerra do Golfo, em 1991.
O acordo com a ONU, quando se contavam os minutos finais para mais um fulminante ataque norte-americano, fortalece Saddam Hussein no plano interno e o projeta, mais uma vez, sobre a comunidade árabe. Mas o grande vitorioso não é Saddam e nem o grande perdedor são os Estados Unidos e seu corolário em política internacional, a Grã-Bretanha. O grande vitorioso é o secretário-geral da ONU, em quem poucos depositavam a esperança de que viesse a conseguir, às vésperas do Apocalipse, o recuo do governo iraquiano.
O acordo obtido entre a ONU e o Iraque é o coroamento da carreira de um diplomata brilhante, que fez da moderação e da simplicidade seus maiores aliados. Annan conseguiu o que poucos, pouquíssimos acreditavam e muitos julgavam ser uma missão impossível e, portanto, mais que mereceu os aplausos e os vivas que recebeu de seus pares ao voltar à sede das Nações Unidas, em Nova York. A ameaça de um ataque norte-americano e de seus aliados ingleses não está definitivamente afastada, mas, no momento, está descartada.
E isto, apenas isto, já é um trunfo, pois a guerra era iminente, a guerra era certa, a guerra era irreversível.
Annan assumiu o mais alto posto diplomático do mundo à revelia dos Estados Unidos, que o aceitaram a contragosto para compensar o veto que fizeram à reeleição de seu antecessor, o egípcio Butros-Butros Ghali. Annan, para a opinião pública mundial, era então um ilustre desconhecido, pois fizera carreira no interior das Nações Unidas e como tal continuou até a missão que empreendeu neste final de semana em Bagdá.
O acordo com o Iraque é um desses momentos históricos luminosos, embora muita névoa tenha de ser dissipada, e o Iraque só venha a viver sob o sol quando se despojar de seu ditador e de seus possíveis sucessores. Mas, no momento, Annan, o anjo da paz, comprovou, como ele mesmo disse, que sua missão era sagrada e que os deuses estavam a seu lado, pois nada mais sagrado do que a paz. E a paz, por mais provisória e instável que seja, é um marco para as Nações Unidas e a consagração de seu secretário-geral.
Que o anjo da paz realize e tenha êxito em outras missões. Que faça Israel cumprir todas as resoluções da ONU, entre elas a desocupação dos territórios palestinos. Que consiga a libertação do Timor Leste. Que liberte o Tibete. Que pacifique o Sri Lanka. Que leve a paz e as condições mínimas à África, o continente que o viu nascer. Que faça os Estados Unidos desmantelarem seus arsenais químicos, biológicos e nucleares...
A agenda da paz é quase infinita. Só mesmo um anjo para cumpri-la.





