É terça-feira, é carnaval, todo o país pára, é a grande farra. Nos desfiles, mulheres lindas, desnudas, é mais um ano, tudo passa, nada muda. Uma nação de foliões, assim pensam de nós, mas não, muitos nãos, aqui se trabalha, até nossos avós, que não têm aposentadoria, não têm mordomia, não desfilam na avenida pois de lutar têm pela vida.
O país pára, é terça-feira, é carnaval, nos clubes o que se vê? uma verdadeira bacanal. É verdade, temos de reconhecer, há orgia, muita alegria, mas tudo é alegoria, é fantasia, amanhã será um outro dia.
É bacanal
é carnaval
é tudo novo
é tudo igual
Amanhã, o outro dia, e já sentimos nostalgia: onde está ACM, na Bahia? onde está FHC, na agonia? onde está Itamar, na abulia? E Lula, ah sim, Lula, este sabemos: caiu na folia, assistiu ao desfile de camarote, e mostrou que Joãozinho Trinta tinha e tem razão, pois quem gosta de luxo é pobre, intelectual não.
É terça-feira, é carnaval, não me levem a mal, mas para onde vamos? Sem-terra são desalojados por ordem da lei e voltam a ocupar, e onde está a lei, é o reino da desordem? E é imposto e mais imposto, e para onde vamos? A CPMF fez um ano, pagamos todos os cara-pálidas caras-de-tacho, e a Saúde? Está falindo, está ruindo, está nos destruindo.
É bacanal
é carnaval
é tudo novo
é tudo igual
Já sentimos nostalgia do outro dia, o amanhã: é o carnaval, o carnaval do dia-a-dia, o batimcubum-sambalelê dos homens de gravata e paletó, com suas bravatas, seus arroubos, seus conchavos. Falamos de quem? Perdoem-me os bons, sigam-me os sóbrios, mas de quem poderia ser - ser ou não ser, eis a questão - a não ser de nossos (maus) políticos, do porta-bandeira ao destaque, dos membros da bateria aos intérpretes do samba-enredo.
É terça-feira, é carnaval, e a ala das baianas continua infernal, saracoteando e mandando, e mandando e rebolando e o nosso presidente aprisionando. Coitadinho dele? coitadinho nada, é o preço da glória mesmo que inglória, mas não tem importância pois na sua ânsia de poder mandou-nos do que escrevera tudo esquecer. Essa é de doer, no conteúdo e na rima, pois o que nosso mandatário escreveu julgávamos obra-prima.
É bacanal
é carnaval
é tudo novo
é tudo igual
É tudo igual? Copa do mundo, eleição, reeleição, re-reeleição: e assim vamos, pires na mão, ouvindo sermão e mais sermão, para onde? para onde? para a globalização. Pentacampeonato? yes Inadimplência? yes Recesso branco, recesso pardo, recesso amarelo? yes yes Privatização? oh, very good, yes. E a crise asiática, isso é passado, e os juros, coisa de endemoninhado, não faz mal, dá-se um jeito, pra que pressa, uai?, nossa equipekonômica vence até bomba atômica.
É tudo igual? Não. É terça-feira, é carnaval, o mundo afinal não é tão mau. Saddam Hussein, o bestial, abriu as portas do arsenal. O apocalipse não é agora, para decepção dos ianques, que o Golfo ocuparam com a munição da morte. E amanhã? Amanhã será outro dia, que a nós não interessa. Pois hoje é terça-feira, hoje é carnaval.

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