Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
Os países do Mercosul estão preocupados diante da ameaça de um golpe de Estado no Paraguai, preocupação enfatizada pelo secretário de Planejamento Estratégico do governo argentino, Jorge Castro, em entrevista publicada na edição de ontem da Folha de S. Paulo. A preocupação é meritória, mas tardia: o golpe de estado já aconteceu.
Um golpe silencioso, sem alarde e sem repercussão, já que se reveste de características jurídicas, por mais aberrantes que sejam. O general Lino Oviedo, que ganhou as prévias do Partido Colorado para disputar a presidência nas eleições de 8 de maio, está preso em Assunção desde o início do ano por ordem do presidente Juan Carlos Wasmosy. Ambos, apesar de pertencerem ao mesmo partido - que controla o país desde o início da década de 50, quando Alfredo Stroessner, então capitão do Exército, tomou o poder e nele ficou até 1989 - são adversários de morte.
Oviedo está preso porque, segundo Wasmosy, violou todos os regulamentos militares ao acusar o presidente de corrupção e tentar um golpe de Estado. O confronto entre os dois teve seu debut público quando o general, hoje reformado mas na época comandante do Exército, acusou Wasmosy de usar testas-de-ferro para ganhar, como de fato ganhou, a licitação para a duplicação da Ponte da Amizade, apresentando preços exorbitantes. Pouco depois, Oviedo aquartelou-se no quartel-general do Primeiro Exército, o mais poderoso do país, e aí tudo ficou envolto na bruma: Wasmosy garante que o general queria depô-lo, e o general jura que jamais pensou em tal infâmia.
Muito bem: o episódio custou a carreira militar de Oviedo mas lhe deu alento para perseguir a carreira política, e seu primeiro intento foi a consagração: ele humilhou o candidato de Wasmosy na convenção colorada e deixou muitos pontos atrás o ex-chanceler e ex-tudo de Stroessner, Luis Maria Arga¤a. Denúncias de fraude daqui, denúncias de fraude dali, e o tribunal eleitoral acabou sacramentando a candidatura do general.
As eleições se aproximam - e Oviedo lidera todas as pesquisas, mesmo preso, mesmo em silêncio, o que deve lhe doer mais que a falta de liberdade. Em segundo lugar está Domingo Laino, do Partido Liberal.
Todos os esforços da Justiça para libertar Oviedo foram em vão, e todos os juízes que se aventuraram a conceder-lhe habeas-corpus, pobres coitados, perderam seus cargos. E nisto consiste o golpe, o golpe que já houve e ninguém - muito menos os governos do Mercosul - botou a boca no trombone para protestar, para berrar que, seja quem seja Oviedo, seja quem tenha sido Oviedo, ele foi eleito por um partido político para concorrer à presidência, e esta decisão tem de ser respeitada.
A prisão de Oviedo deixou os paraguaios perplexos. E a perplexidade deu lugar à inquietação, que se alastra pelo país, do estrato civil ao militar. Os militares - e já o dissemos aqui - manifestam-se solidários a Wasmosy, mas sua posição é meramente protocolar, já que o presidente é também comandante das Forças Armadas. Os oficiais de nível médio e o grosso da tropa idolatram Oviedo por seu currículo recheado de atos de brio, sendo que o mais corajoso de todos foi desafiar sozinho e a pé todo um regimento blindado para capturar Stroessner, nos estertores do golpe que o depôs.
A sociedade civil, a imprensa, os religiosos paraguaios não temem mais o golpe, pois o golpe já ocorreu. Temem as consequências dele. Pois, caso Wasmosy impeça a candidatura de Oviedo, o Exército não irá se omitir. Os colorados alinhados ao general reformado não irão se omitir. A sociedade civil, por mais dividida que esteja em relação ao episódio, não irá se omitir.
O golpe, reiteramos, já aconteceu. O que se pode - e deve - evitar é a guerra civil no país vizinho e amigo.





