Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
O novo episódio da guerra civil que se instalou no campo, culminando com a morte do sem-terra Sebastião Camargo, executado à queima-roupa por pistoleiros durante a desocupação das fazendas Saudade e Boa Sorte, em Marilena, retrata a crise de autoridade do Estado e a consolidação de duas forças antagônicas - os sem-terra, cada vez mais organizados e ousados, e os grupos verdadeiramente paramilitares que se disseminam para ocupar o vazio deixado pelo Estado no cumprimento da Justiça.
A reunião entre o governador Jaime Lerner, seus secretários, o presidente do Incra, Milton Seligman, e representantes dos sem-terra e da bancada ruralista, na tarde de segunda-feira, no Palácio Iguaçu, faz lembrar o almoço dominical de uma típica família italiana. Sobretudo se for calabresa ou siciliana. Almoço no qual todos esbravejam e se acusam mutuamente, para, em seguida, retomarem suas vidas como se nada tivesse acontecido.
O Incra responsabiliza os produtores rurais, que se queixam dos critérios de desapropriação e acusam o governo de não cumprir as ordens de desocupação; o governo lança anátemas sobre os produtores por eles terem se adiantado a um procedimento judicial e, por fim, os sem-terra apontam o dedo para todas as direções e vêem até agentes da CIA, a agência de espionagem norte-americana, por trás dos métodos truculentos - e por que não assassinos? - dos produtores que ordenaram a desocupação das fazendas.
Ninguém é culpado de nada, conclui-se da reunião do Palácio Iguaçu e conclui-se de tantas outras reuniões que, como a de segunda-feira, foram marcadas pela emoção, produziram mil e uma boas intenções, para revelarem mais tarde que nada ou quase nada se fez para solucionar o problema.
Enquanto isso, os sem-terra despejados das fazendas Saudade e Boa Sorte ocuparam outra fazenda (onde, pelo menos, têm piscina para atenuarem o calor escaldante que El Ni¤o está nos proporcionando) e lá deverão permanecer, a exemplo de episódios anteriores, mesmo que a área seja considerada produtiva ou que a Justiça ordene sua desocupação. E os produtores rurais, derrotados em mais este episódio, não terão alternativa a não ser desistir de lutar por reaver suas propriedades - o que parece o menos provável - ou aumentar o efetivo de pistoleiros sob suas ordens para impor sua vontade sobre a Lei e a Ordem.
A política de reforma agrária do presidente Fernando Henrique, meritória em sua concepção, está se revelando um desastre em sua aplicação. Por sua complexidade, a reforma agrária é lenta e custosa, ora estimulando ora desanimando os sem-terra - que, em ambas as situações, desencadeiam uma onda de invasões na tentativa de acelerar o processo ou evitar sua estagnação.
Para os produtores rurais, que passaram da noite para o dia do Brasil Colônia para uma economia globalizada sem que o governo adotasse uma política agrícola capaz de estimular a produção, a ação dos sem-terra é um desestímulo a mais para que continuem exercendo essa atividade. O motivo alegado para a desocupação das fazendas Saudade e Boa Sorte foi a tentativa de suicídio do proprietário de uma delas. Se verdadeiro, a tentativa de suicídio do proprietário não justifica a ação armada, mas é emblemática do estado de ânimo de grande parte dos produtores rurais - que vêem dia a dia suas propriedades e o fruto de seu trabalho perderem valor. Quantos não estariam realmente pensando em suicídio?





