Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
Quase nove anos depois que o último ditador latino-americano - Alfredo Stroessner - encerrou definitivamente sua carreira, dois países do continente voltam a conviver com o fantasma de um período que julgavam para sempre sepultado. Argentina e Paraguai são neste momento vítimas de uma turbulência institucional cujos desdobramentos são imprevisíveis. Imprevisíveis e ameaçadores.
A partir do momento em que o capitão-de-fragata Alfredo Astiz cometeu, no mês passado, a imprudência de confirmar publicamente o que todos já sabiam - mas que as Forças Armadas de seu país negavam com veemência -, a Argentina não recobrou a calma que dominava suas instituições desde a última rebelião militar, liderada em 1991 pelo coronel Mohamed Seineldin. Astiz confirmou com todas as letras que, na condição de membro de um grupo-tarefa encarregado de perseguir opositores do regime militar - que vigorou de 1976 a 1983 - foi instruído a matar e a torturar, e que estes eram os métodos usuais de perseguição política.
Até aí nenhuma novidade, e o histórico relatório (Tortura Nunca Mais) preparado pelo escritor Ernesto Sabato é veemente e irrefutável em denunciar as práticas homicidas do regime militar. A confissão súbita de Astiz, no entanto, gerou verdadeiro clamor nacional, provocando o que anos de luta de organizações de defesa dos direitos humanos não foram capazes: a tentativa de revisão das leis de Obediência Devida e Ponto Final, que livraram do julgamento mais de mil militares.
O tema passará a ser discutido a partir de hoje pela Câmara dos Deputados, e divide partidos políticos e a opinião pública - que, neste caso específico, manifesta-se a favor da retomada do julgamento dos militares acusados de crimes durante o regime militar. O assunto, por enquanto, se restringe ao Legislativo, onde se buscam fórmulas que permitam, enfim, que a justiça seja feita. Os militares, por enquanto, não se manifestaram - muito menos através da mobilização de tropas, seu argumento mais banal.
No Paraguai, no entanto, as Forças Armadas estão em estado de alerta. O general da reserva Lino Oviedo, que em setembro foi indicado pelo Partido Colorado - da situação e com o maior número de militantes em todo o país - para concorrer à presidência, cumpre mais uma pena de prisão. Sua mais recente tentativa de conseguir a liberdade foi arquivada ontem por um juiz. No final da semana passada, a concessão de habeas-corpus por um juiz substituto não teve sequer tempo de ser posta em prática: o comando das Forças Armadas pôs tanques nas ruas e ordenou sobrevôos da capital por aviões de guerra, numa clara demonstração de que não está disposto a permitir que Oviedo dispute o pleito presidencial.
O comando das Forças Armadas revela coesão em torno do presidente Juan Carlos Wasmosy, mas oficiais de patentes intermediárias e o grosso das tropas já se manifestaram diversas vezes solidários a Oviedo. As eleições estão previstas para 8 de maio e, nesse curto período de menos de três meses, a situação pode fugir ao controle, tanto de Wasmosy como do comando das Forças Armadas.





