Sinceramente, a deputada Yeda Crusius (PSDB-RS) não merecia ter em sua biografia de parlamentar atuante e ministra profícua do governo Itamar Franco fato tão desabonador. Pois Yeda foi uma das integrantes - talvez a mais notória - da comitiva de deputadas que, quinta e sexta-feiras passadas, gazeteou as sessões da Câmara para tomar um refrescante banho de cachoeira na Chapada dos Veadeiros, um dos santuários ecológicos nacionais.
Além de Yeda, participaram do passeio ecológico as deputadas Maria Elvira (MG) e Nair Xavier Lobo (GO), do PMDB, Márcia Marinho (MA), do PSDB, e Socorro Gomes (PA), do PC do B. As cinco estão indignadas. Reclamam do tratamento que a imprensa tem dispensado ao caso e protestam: eles não faltaram às sessões pura e simplesmente para fazer um relax, e, sim, afastaram-se dos sagrados domínios do Congresso em missão oficial. Isto é, alegam, foram à Chapada para supervisionar um projeto que está em análise pela Comissão de Relações Exteriores da Câmara, que é o reconhecimento de Alto Paraíso como Cidade Internacional do Conhecimento.
O projeto é de autoria da colega Nair Lobo. Como Alto Paraíso está numa região onde se acredita pousarem discos voadores para a confraternização de seus pilotos, concluímos, portanto, que a importância do projeto da nobre deputada extrapola nossas fronteiras, generosas porém insignificantes diante de um Universo infinito. Marcianos, uranos, lunáticos e outros extraterrestres devem estar de olho em nós, neste momento glorioso da fraternidade universal...
Yeda - oh, até tu, Crusius! - reclama que ficará ‘‘marcada’’ para sempre em consequência do episódio e já antecipa: onde estiver, por onde passar, fale o que falar, sempre haverá alguém, dedo em riste, a atormentar-lhe a consciência com o epíteto fatal: ‘‘Gazeteira, gazeteira’’. E Socorro Gomes - que levou um pito da mãezinha desapontada, esperneia: ‘‘Por que só estão falando de nós cinco’’ já que outros 460 deputados também deram chabu na sessão de sexta?
Justiça seja feita. Socorro tem razão em parte. Seus colegas de ofício não são exemplo de santidade, as sessões de segunda e sexta-feiras são uma piada, mas nenhum deputado tem o direito - como fizeram as cinco - de assinar o ponto, para garantir seus salários, e dar no pé.
Mesmo que o trabalho que disseram que foram fazer tenha, como dissemos nós, interesse universal. A nenhum trabalhador é dado o direito de bater o ponto na empresa que o remunera e prestar serviço simultaneamente em outra empresa. Se assim é, porque o Congresso abriria exceção?
Yeda Crusius propõe que se encontre uma solução para o drama das segundas e sextas e sugere que o Congresso trabalhe três semanas consecutivas para, na quarta, liberar a todos para que possam ‘‘visitar suas bases eleitoras’’ - essa justificativa que soa a desculpa de escolar que diz não ter ido à aula porque sua mãe ficou doente. De qualquer forma, é uma proposta a ser estudada, embora tenha sido apresentada justamente por alguém que foi flagrada com a boca na botija. O risco, caso a proposta seja adotada, é dar uma semana de folga para os parlamentares sem que eles precisem abrir mão dos finais de semana prolongados.
Ou não estamos no Brasil?

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