A pasmaceira que caracteriza a política brasileira todo início do ano tem, nesta edição revisada e ampliada de 98, o mérito de nos permitir olhar com mais atenção além de nossas fronteiras quase sem fim e a cada dia mais permeáveis, simbolicamente, neste Universo em processo inexorável de sucção pelo buraco negro da globalização.
Neste aspecto, podemos nos considerar circunstancialmente mais privilegiados que os norte-americanos que, entre pasmos e divertidos, acompanham mais um ‘‘affair’’ sexual de seu presidente. E desta vez, se se confirmarem as denúncias de que Bill Clinton, após seduzir a simpática com cara de boboca Monica Lewinsky, pressionou-a para mentir sobre sua relação, o presidente poderá ser submetido a um processo de impeachment por perjúrio e obstrução da Justiça.
Se isto ocorrer - e Clinton está em minoria tanto na Câmara quanto no Senado -, a história completará seu ciclo: um presidente do Partido Democrata poderá ser defenestrado do poder por causa de suas mulheres, duas décadas e meia depois que outro presidente, Richard Nixon, renunciou quando não tinha mais chances de permanecer no poder por causa de seus homens de confiança que burlaram a lei ao bisbilhotarem a sede de seus adversários políticos, justamente os democratas.
Por causa do novo escândalo presidencial, os norte-americanos, que eventualmente acompanhavam pela TV a visita do papa João Paulo II a Cuba, perderão a companhia dos ‘‘âncoras’’ mais famosos. O cenário para esses âncoras já é outro: eles trocaram as fétidas ruas de Havana pelos jardins da Casa Branca. Todos eles foram chamados às pressas por suas respectivas emissoras para cobrir os desdobramentos da crise presidencial incipiente.
A expectativa em torno da visita do papa João Paulo II a Cuba se confirmou mesmo antes de ele pisar o solo daquele país. Ainda no avião, o papa mandou um claro recado para Fidel Castro ao classificar a revolução comandada por ele, e que o içou ao poder em 1959, como uma ‘‘revolução do ódio’’. Os norte-americanos sequer tiveram tempo para comemorar este feito, pois, na mesma ocasião, João Paulo voltou a condenar o embargo econômico de Washington contra Cuba.
Em seu primeiro discurso João Paulo II pediu o respeito à liberdade e aos direitos humanos. Na missa que rezou ontem em Santa Clara, assistida por mais de 150 mil pessoas, o papa tocou numa das chagas mais profundas e doloridas dos cubanos, ao pregar a reconciliação entre eles. Mais de um milhão de cubanos vive no exílio, e parcela significativa deles anseia pela rápida deposição de Fidel, quanto mais cruenta, melhor.
E é justamente este o motivo principal da visita de João Paulo II a Cuba: exigir mudanças, mas desaconselhar a violência. O regime cubano está tão ou mais podre que o casario de Habana Vieja e não há estuque ou reforço de estrutura que possa mantê-lo em pé por muito tempo. O papa sabe disso melhor do que nós, e Fidel mais do que todos. Por isso o convidou. Ouviu - e mais ainda irá ouvir - palavras duras, mas, ironia das ironias, necessita do poder do líder de uma instituição que tanto combateu para evitar tragédia maior para si e seu povo.

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