Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
O protesto dos aposentados, que ontem tentaram subir a rampa do Palácio do Planalto, irritou o presidente Fernando Henrique Cardoso. Que, furioso, ligou para o presidente do Congresso, Antonio Carlos Magalhães, para ordenar-lhe que censurasse publicamente o senador Eduardo Suplicy, que se juntou aos manifestantes. Magalhães, obediente como o coroinha diante do padre nos bons tempos de antigamente, nem titubeou.
Suplicy ficou com a orelha vermelha com a repreensão que sofreu em plena sessão do Senado, mas quem deveria ficar roxo de vergonha é Fernando Henrique, pois o motivo da sua irritação não foi a situação deplorável da maioria esmagadora dos aposentados brasileiros, mas a possibilidade de um conflito deles com a segurança do Planalto. Se isto ocorresse, como ficaria sua imagem, num ano eleitoral tão decisivo para seus planos?
Pois os aposentados, como a dona Pedrina, uma das integrantes da caravana de deserdados do Plano Real, fizeram um protesto mais do que justo. E só se atreveram a subir a rampa do Planalto para deixar bem clara sua indignação: pela esmola mensal que recebem, em primeiro lugar, e em segundo, pelo descaso com que são tratados pelo presidente. Há um ano eles estão tentando uma audiência com Fernando Henrique, que teve tempo para tantas coisas supérfluas, como jantar com o ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf e receber o tenista Guga depois da façanha de Roland Garros, mas não conseguiu quinze minutinhos de sobra para ouvir os aposentados.
O deputado Paulo Paim (PT-RS) rezou ontem, mais uma vez sua prece ao salário mínimo. Deixando de lado o gesto teatral de fazer a prece de joelhos e diante das câmeras dos fotógrafos e cinegrafistas, Paim é um obstinado lutador de uma causa perdida. Elevar o salário mínimo para R$ 208 como ele defende, jamais.
O governo pode gastar R$ 21 bilhões com o Proer, programa de salvamento de bancos particulares, e se prepara para financiar o saneamento dos bancos estatais, esforço que exigirá mais R$ 37 bilhões. Mas elevar o salário mínimo para R$ 208, R$ 210 ou R$ 205 é algo impensável, pois seria o fim da combalida Previdência Social e a ruína definitiva das finanças públicas e o apocalipse para a iniciativa privada.
Dona Pedrina, com seus mais de 70 anos, fugiu de sua casa em Petrópolis para participar do protesto de ontem. Não queria preocupar os filhos. Portava uma bandeira do Brasil que, segundo ela, tem mais peso de lágrimas do que de tecido. Dona Pedrina sobrevive com uma aposentadoria de R$ 123, prêmio que recebeu após 39 anos de trabalho numa tecelagem. Perdeu o marido, vitimado pelo câncer, outro deserdado do Plano Real que, como ela, era aposentado e, tal como ela, recebia uma esmola mensal.
Dona Pedrina, proteste, proteste. Enquanto ainda lhe restar força, proteste. Faça o presidente se sentir avexado e despertar de seu sono. E nós também.





