Não bastou o incentivo de 17 mil reais líquidos num único mês de trabalho: o período de convocação extraordinária só está tendo alguma utilidade prática no Senado, onde os nobres integrantes da Comissão de Constituição e Justiça fizeram o ato heróico de aprovar, recusando todas as emendas, a proposta de reforma administrativa. E outras cositas más, com o contrato temporária de trabalho. Parabéns, parabéns, senhores.
Apesar de o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães - que não é homem de mentir, por ser temente a Deus e devoto de Nosso Senhor do Bonfim -, ter garantido que ‘‘vamos fazer mais em um mês do que em um ano’’, a Câmara dos Deputados ainda não se recuperou da ressaca do Natal e do Reveillon e já começa a diminuir o ritmo dos ‘‘trabalhos’’, pois, afinal, o Carnaval está aí, e sabe como é...
Mas agora, senhoras e senhores, eleitores deste país de dimensões continentais, a situação irá mudar. Para melhor. E isto não é uma promessa, é um fato. Um fato consumadíssimo: a Câmara dos Deputados já dispõe desde ontem do instrumento que lhe faltava para comunicar-se com o povo, esse povo que não tinha acesso ao trabalho estafante dos abnegados, incompreendidos e injustiçados parlamentares. Luzes, câmaras, ação: a TV Câmara está no ar!
Não, senhoras e senhores, não haverá mais sessões suspensas por falta de quórum mínimo, que é de 51 (boa idéia) deputados, como as três ocorrências desde o início dos ‘‘trabalhos’’ extraordinários, 16 dias atrás. Pois a partir de agora as câmaras estarão lá, fixas como o dedo em riste da nação, a apontar para a tribuna, para as poltronas, para as galerias, para as salas insalubres onde se reúnem as comissões especiais e permanentes. E ai daquele parlamentar que não estiver presente, ai daquele que não ocupar a tribuna com o discurso de um padre Vieira e a oratória de um Bossuet...
O custo? Insignificante um milhão de reais para a compra de equipamentos, mais insignificantes R$ 360 mil para as instalações e outros também insignificantes R$ 140 mil mensais para custeio. O que é isto diante do dever cívico de levar às multidões ansiosas o rosto, a fala, o terno, o cabelo e o bigode de uma multidão de deputados que não têm a chance, pelo mau humor do destino, de aparecer todos os dias nos jornais e revistas de grande circulação e nos programas jornalísticos das TVs particulares? Uma pechincha!
Portanto, que ninguém se omita: se o nobre parlamentar representante de sua região não der o ar da graça ao vivo em em cores na TV Câmara, esperneie, reclame, faça greve de fome, lote ônibus e caminhões em caravana a Brasília, acampe diante do Congresso. Se não aparecer no vídeo é porque seu deputado, pobrezinho, está sendo boicotado, vítima da trama sórdida de seus pares ou dos editores e operadores da TV.
Mas se o senhor ou a senhora não dispuser de uma TV a cabo, que irá transmitir com exclusividade as atividades da Câmara, não se desespere: continue assistindo ao Ratinho e aos rebolados da Carla Perez - eles são menos violentos e menos obscenos.

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