Os argentinos parecem não se livrar do período mais negro de sua vida republicana, a ‘‘guerra suja’’ deflagrada pela ditadura militar entre os anos de 1976 a 1983, que produziu milhares de mortos e ‘‘desaparecidos’’, dividiu famílias, traumatizou a nação e abalou consciências. Os longos e tenebrosos julgamentos dos generais-presidentes, iniciados em 85 por Raúl Alfonsin, fizeram o país olhar-se com repugnância no espelho, e desse encontro com a realidade irromperam várias rebeliões militares e surgiram coronéis messiânicos como Mohamed Seineldin e Aldo Rico.
Os generais-presidentes, após cumprirem longo mas confortável período de enclausuramento, foram esquecidos; os coronéis messiânicos converteram-se em personagens folclóricos: mas os ecos da barbárie seguem perseguindo a Argentina, pois, de quando em quando, um ou outro participante da ‘‘guerra suja’’ vem a público ou para um ato de contrição ou para afrontar a nação.
No primeiro caso está Alfredo Scilingo, ex-oficial da Marinha que no ano passado se entregou voluntariamente à Justiça espanhola após admitir, envergonhado, ter participado dos ‘‘vôos da morte’’, durante os quais centenas de prisioneiros políticos foram lançados ao mar. No segundo caso está o capitão de fragata, hoje reformado - apesar de seus 46 anos - Alfredo Astiz.
Um dos personagens mais deploráveis e emblemáticos daquele período, Astiz reconhece com orgulho, em entrevista a um jornal, que a categoria ‘‘desaparecidos’’ é um eufemismo, pois todos os ‘‘subversivos’’, segundo ele, ‘‘foram limpos’’ - isto é, mortos. E, mais, que foi comum o sequestro de bebês, filhos das vítimas da repressão, fato que as obstinadas velhinhas da Praça de Maio estão cansadas de denunciar mas que até hoje o governo não reconhece.
As declarações de Astiz, publicadas ontem, uma semana depois de o governo ter anunciado que pretende demolir o mais diabólico dos símbolos da ditadura, a Escola de Mecânica da Marinha - onde pelo menos cinco mil pessoas foram torturadas antes de morrer - levou o presidente Carlos Menem a ordenar a punição imediata do capitão de fragata. Astiz passará 60 dias detido.
Conhecido como o ‘‘diabo loiro’’, título mais que meritório devido à truculência, falta de escrúpulos e barbárie que demonstrou quando integrava um dos grupos de tarefa da Escola de Mecânica, Astiz foi condenado, à revelia, à prisão perpétua na França por ter matado duas freiras daquele país que trabalhavam na Argentina. Pesam ainda contra ele os assassinatos de mais duas mulheres. Apesar de todas as evidências contra o capitão, que tinha a patente de tenente na época da repressão, ele nunca foi condenado pela Justiça argentina, beneficiado, como milhares de militares, pelas leis da obediência devida e ponto final, artifícios jurídicos que Alfonsin e Menem encontraram para pôr uma pedra na questão militar.
‘‘A Marinha me ensinou a destruir, instalar bombas, a me infiltrar e matar’’, declara Astiz, acrescentando ser o ‘‘homem melhor preparado tecnicamente neste país para matar um político ou um jornalista’’. O capitão revela que os militares foram convidados a ‘‘liderar outro levantamento’’ e desafia: ‘‘As Forças Armadas têm quinhentos mil homens tecnicamente preparados para matar. Sou o melhor de todos’’.
Pobre Astiz, tão valente e tão covarde. Valente para matar mulheres indefesas, covarde ao pôr à prova suas habilidades militares, quando, em 1982, ao chefiar a guarnição que defendia das ilhas ilhas Geórgias do Sul, durante a guerra das Malvinas, rendeu-se sem disparar um tiro sequer. Se ele realmente for ‘‘o melhor de todos’’ os militares argentinos, choro por ti, Argentina!

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