Janeiro se arrasta, modorrento como sempre: grande parte da população está em férias, os negócios em ritmo de Sexta-feira da Paixão, a Globo já nos persegue com os clips das escolas de samba e, com isso, a mulata globeleza volta aos poucos à cena. Em outubro iremos escolher o presidente da República, governadores, senadores e deputados, mas a modorra de janeiro nos persegue, pegajosa, provocando aquele suave e doce torpor coletivo.
Junho, mês das festas caiprias, é a alegria dos baloneiros inveterados, aqueles loucos que, em nome da arte e de um breve esplendor no céu, põem em risco a segurança de meio mundo. Os baloneiros da política, que as festas de fim de ano obrigaram a um pouso forçado, tentam alçar vôo novamente, na espera de que seu espetáculo pirotécnico - às vezes mais letal que o dos balões juninos - distraia nossa atenção.
O momento, para eles, é mais que oportuno, já que tanto o Executivo como o Legislativo estão em compasso de espera. Mas o Congresso não está a pleno vapor em mais uma convocação extraordinária, trabalhando em fina sintonia com os desígnios supremos do Planalto? Engana que eu gosto: a convocação extraordinária é um consolo para as finanças dos nobres parlamentares, que receberão o triplo de seus vencimentos, e servirá apenas para a contagem dos prazos regimentais para a tramitação das ‘‘reformas’’ - essa pajelança com a qual o governo espera solucionar todos ou os mais visíveis males da Nação.
O Congresso - com todo respeito ao senador Onofre Quinan, homem honrado, falecido ontem - se assemelha nesta época a uma sala de velório após o sepultamento do morto, com aquele ranço de velas e flores e nenhuma viv’alma por perto. São as reuniões protocolares, com quórum ínfimo e restritas aos membros das comissões especiais, as únicas atividades do período da manhã. À tarde, o burburinho toma conta do plenário, do hall e, principalmente, do cafezinho e, ufa! todos se preparam para mais uma sessão - que normalmente dura alguns poucos minutos, e estão todos dispensados, nobres colegas.
Tédio, tédio - e eis que um balão procura alçar vôo na Praça dos Três Poderes. E naquela cestinha (perdoem-se os balonistas de verdade), a acenar para a platéia displicente, estão Lula e o deputado Paes de Andrade, presidente nacional do PMDB. E Lula, entre acenos e beijos, manda o recado de que poderá até abrir mão de sua candidatura à Presidência da República... se o PMDB lançar seu próprio candidato. Pode ser qualquer um, Itamar ou Sarney, mas o líder petista não esconde sua preferência pelo senador Roberto Requião.
E lá está o balão, flutuando a poucos metros do chão, à espera de que as condições normais de temperatura e pressão possibilitem sua decolagem. E à espera também de que outros passageiros se decidam a participar da aventura, sem os quais nada feito.
Do outro lado da Praça, Fernando Henrique nem se dá ao trabalho de olhar por uma fresta da persiana. E para quê? Enquanto seus adversários planejam façanhas mirabolantes e aventuras audaciosas, ele não precisa tirar os pés do chão e, apesar de algumas avarias provocadas pelo Pacote 51, seu governo continua em terreno sólido e rumo a mais um porto seguro.

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