Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
Se a saúde não lhe pregar novo susto, o papa João Paulo II estará iniciando, no dia 21, uma das mais árduas e delicadas missões de seu já longo pontificado: levar a mensagem cristã aos cubanos sem atiçar a ira do presidente Fidel Castro. A estada de João Paulo II no último reduto ocidental do comunismo será de pouco mais de 48 horas, e ele, mais uma vez, será solicitado a recorrer à sua tradicional diplomacia para dizer nas entrelinhas - como já fez, com sucesso, em vários países do Leste Europeu quando ainda estavam sob o jugo soviético - o que gostaria de gritar a plenos pulmões.
O papa não poderá, naturalmente, acusar Fidel de ditador e de repressor da liberdade de expressão, entre outras coisas, mas sua linguagem metafórica certamente trará indicações da necessidade de uma mudança radical na condução política do país. Não é necessário, no entanto, ser papa e muito menos santo para se saber desde já que Fidel fará ouvidos moucos às críticas, por mais sutis e hiperbólicas que sejam. Mas o povo cubano saberá interpretar a mensagem, como fizeram poloneses, alemães orientais, ucranianos e outros povos visitados pelo pontífice?
Certamente os defensores da democracia gostariam que João Paulo falasse francamente e que os resultados de sua visita apostólica fossem imediatos, mas a história mostra que o tempo tem sido um importante aliado do papa. Os países do extinto Pacto de Varsóvia são um exemplo (e quem há de negar que o pontífice e a então Igreja do Silêncio não tiveram papel de vanguarda nesse processo?).
E aqui mesmo, na América Latina, e no outro extremo do espectro político, Chile e Paraguai tiveram mudanças radicais após a passagem de João Paulo II. Em 87, o papa visitou o Chile - e no ano seguinte Pinochet foi derrotado em plebiscito e teve de convocar eleições. Em 88, lá estava João Paulo II no Paraguai - e um ano depois Alfredo Stroessner era expelido do poder.
Aos 71 anos e com a saúde abalada - nem tanto quanto a do papa, pelo menos na aparência -, Fidel já não exerce sobre a opinião pública mundial, e tampouco sobre os cubanos, o mesmo fascínio dos primeiros anos de seu governo, mas não revela o menor sintoma de que está disposto a mudar.
E mudar radicalmente, como as precárias condições de vida de seu povo exigem. À já comprovada ineficácia do regime comunista, somam-se, para explicar a situação pré-falimentar de Cuba, o fim dos acordos comerciais protecionistas com a finada União Soviética e o embargo norte-americano, velho de mais de três décadas. A pálida abertura econômica, adotada por Fidel na tentativa de atrair investimentos estrangeiros, esbarra na Lei Helms-Burt, através da qual os Estados Unidos, em flagrante violação do Direito Internacional, querem a todo o custo impedir que os cubanos tenham acesso a estes investimentos.
Fidel acaba de ser reeleito para um novo mandato de cinco anos como deputado pela província de Santiago de Cuba, o que automaticamente lhe renova o mandato de senhor supremo do país, na condição de presidente dos conselhos de Estado e de Ministros.
O Vaticano está convencido de que Cuba, mais cedo ou mais tarde, terá que mudar, e de preferência que esta mudança seja gradual. Fidel não admite sequer esta segunda hipótese. Para o governo norte-americano, só um homem será capaz de iniciar a abertura política: o comandante das Forças Armadas e irmão de Fidel, Raul, considerado pragmático e que vem acompanhando com interesse a evolução do regime chinês.
A missão de João Paulo II a Cuba, portanto, será a de ministrar a extrema-unção a um regime e a um ditador.





