Os ecos do estrondo causado pela CPI dos Precatórios ainda não se silenciaram de vez e o fogoso senador paranaense Roberto Requião (PMDB) volta a roubar a cena. Armado com as gravações feitas por seu irmão-deputado Maurício, o senador acusa o governo de adotar critérios políticos na liberação de emendas contidas no Orçamento Geral da União.
O porta-voz do presidente da República diz que Fernando Henrique não tem nada a ver com o pato, embora em nenhum momento o presidente seja citado nas fitas, mas o contexto o responsabiliza, na condição de chefe de governo. O ministro da Articulação Política, Luiz Carlos Santos, ainda não se pronunciou - o que deverá fazer, espera-se, após pôr os pés de volta ao país depois das mais que merecida férias no Caribe -; e o ministro da Saúde, Carlos Albuquerque, também tirou o corpo fora mas não deixou por menos: demitiu o funcionário que teve a ingenuidade de confessar o inconfessável.
Para o governo, a denúncia de Requião, que poderá ter desdobramentos, como promete o senador, é o primeiro arranhão que sofre em sua imagem em 98, e logo no início de um ano tão decisivo para os planos reeleitorais de Fernando Henrique. Para Requião, os dividendos políticos poderão ser generosos, principalmente neste momento em que o PMDB debate-se entre ser ou não ser governo, em lançar ou não um candidato à presidência da República.
O senador paranaense, compreensivelmente, não se dá por satisfeito com a cortina de fumaça que o governo está levantando em torno de sua denúncia e procura, o quanto pode, aumentar seu poder de fogo. E, escoltado pelo PT de seu colega de Senado, Eduardo Suplicy, pretende dar entrada numa ação de responsabilidade contra o presidente Fernando Henrique.
Quanto mais o governo se esquivar, melhor para Requião: ele continuará na mídia, dará fôlego a Paes de Andrade para continuar em sua cruzada de lançar o PMDB na campanha pela presidência, animará os convencionais e, por fim, fortalecerá seu nome como eventual candidato do partido à disputa.
Mas, diz o senador, seu nome foi ‘‘oferecido’’ apenas como mais uma opção do PMDB, que possui outro dois ‘‘presidenciáveis’’, embora poucos acreditem na real disposição de José Sarney e Itamar Franco de disputarem para valer uma campanha pelo Palácio do Planalto. Sarney, que dispõe de mais cinco anos de mandato como senador, está, no momento, mais interessado na reeleição da filha Roseana ao governo do Maranhão. E Itamar, dublê de embaixador junto à Organização dos Estados Americanos, dificilmente conseguiria arregimentar forças para uma causa tão difícil. O governo de Minas, para ele, está de bom tamanho - e para isso ele terá uma forcinha de Fernando Henrique.
A prioridade confessa de Requião é voltar ao governo do Paraná. Seus aliados o aconselham a definir-se logo, mas ele não tem pressa. A aliança com o PSDB de Álvaro Dias é fundamental, mas quem encabeçaria a chapa, ele, Requião, ou Álvaro? Aí está o nó da questão.

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