Brasil On Line (José Antonio Pedriali)

Rodando a baiana
‘‘ACM ainda não sabe se vai aceitar o convite da Escola de Samba União da Ilha para desfilar no grupo especial do Carnaval do Rio’’, informou ontem esta Folha. Mas o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), presidente do Congresso, não precisa estar na Marquês de Sapucaí para rodar a baiana, trejeito que o caracteriza em seus rompantes de fúria e que o tornou célebre, por ocasião da crise do Banco Econômico, quando ele, à la Brancaleone conduzindo seu exército de boquirrotos, cruzou a Praça dos Três Poderes escoltado por uma comitiva de políticos baianos para exigir do presidente Fernando Henrique uma solução negociada para o banco de seu Estado.
Pois ACM voltou a rodar a baiana terça-feira, na abertura solene do período extraordinário dos trabalhos do Congresso, defendendo seus pares, tão nobres quanto ele, sim, senhor, e disparando sua bateria verbal contra os críticos dos congressistas. Que, para ele, não passam de ‘‘uma meia dúzia de empresários’’ que visam tão somente ao lucro, jamais ‘‘ao benefício do País’’. E, para comprovar que suas palavras não eram vãs, ACM desembainhou seu argumento mais letal: números, números. Segundo ele, as críticas contumazes a deputados e senadores, mais vorazes neste novo período de convocação extraordinária, não têm o menor sentido pois lá estavam, naquele momento solene, 201 parlamentares, ou exatos 161 deputados e 40 senadores.
Ora ora, pois pois, nobre senador, já que o que importa são números, vamos lá: o Congresso é composto de 513 deputados e 81 senadores, perfazendo o total de 594 integrantes. E vossa excelência fica feliz, apontando este fato para todo o país como um trunfo - a vitória da moralidade sobre seus desafetos - com a presença de apenas um terço do congressistas!
O senhor deveria é ter rodado a baiana em relação aos dois terços faltosos, que, se gazearam o primeiro dia de trabalho, certamente vão aproveitar para dar uma esticadinha nas férias e só dar as caras aí em Brasília na terça-feira da semana que vem. E assim embolsarão 25% da remuneração deste mês sem fazer nada, absolutamente nada, graças, em parte, à benevolência do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que dispensou do ponto seus subordinados. Um parêntese, senador: o senhor não dispensou seus súditos do ponto, mas descontará o salário dos 41 senadores ausentes?
Pois, se o seu negócio é número, número, continuemos: cada parlamentar receberá um salário bruto de R$ 24 mil este mês, equivalendo a um líquido de pouco mais R$ 17 mil. Ou R$ 4,3 mil, mais ou menos, por semana - dinheiro que muitos vão embolsar sem precisar interromper seu dolce far niente. Quatro mil e poucos reais é pouco dinheiro, sem dúvida, principalmente para um próspero empresário como é o presidente do Congresso, mas comparados com o ganho da maioria da população revelam-se um disparate - correspondem a 36 salários mínimos. Cada parlamentar irá receber, descontados o Imposto de Renda e outros encargos, o equivalente a 145 salários mínimos num único mês e com direito, tratando-se dos deputados, de dar o calote de uma semana no dever do ofício.
Ao trabalho, portanto, senhores. Pois, como bem lembrou - num momento de rara lucidez - o líder do PFL na Câmara, Inocência de Oliveira, ‘‘temos de mostrar serviço porque a sociedade está de olho em nós’’.

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