O governador Jaime Lerner passa por um momento delicado: inicia seu quarto e último ano de mandato com nível de popularidade abaixo do esperado e precisará recorrer a toda a sua criatividade, que é pródiga, para reconquistar seus eleitores decepcionados e impedir o crescimento de seus principais adversários, os ex-governadores Álvaro Dias (PSDB) e Roberto Requião (PMDB).
Dos três candidatos em potencial e com chances de vitória, o único que não tem nada a perder é Requião. Ele tem ainda mais cinco anos de mandato como senador e, embora não mais desfrute da publicidade que conquistou durante os trabalhos da CPI dos Precatórios, que relatou, tem energia como poucos e o dom de roubar a cena, custe o que custar, assim que as circunstâncias o aconselhem a tal. Requião sonha com um embate direto com o presidente Fernando Henrique Cardoso, mas, para isso, terá de ter a chancela de seu partido, dividido entre a aventura - ou odisséia, caso tenha êxito - de desafiar Fernando Henrique com uma candidatura própria ou aconchegar-se definitivamente ao poder.
Highlander, o mítico guerreiro imortal, ao qual Requião associa metaforicamente a sua imagem, não teria dúvida: lançaria sua fúria sobre o adversário mais poderoso. Enquanto o PMDB nacional patina na lama da indefinição, o PMDB do Paraná tem pressa, quer logo uma definição, mas o guerreiro continua impassível, esperando os exércitos se alinharem para, então, se decidir em qual flanco atacar.
Álvaro Dias, hoje no comando da poderosa Telepar - cargo que terá de deixar em abril para que possa se candidatar - desponta como o principal adversário de Lerner. É apontado nas pesquisas de âmbito estadual em situação de igualdade em relação ao governador (o último Datafolha deu 35% de preferência para ambos), mas nas pesquisas locais, nas principais cidades do Norte, Noroeste, Oeste e Sudoeste, já ultrapassa Lerner.
As pesquisas dão ânimo a Álvaro Dias, cujo partido já se decidiu por uma candidatura própria ao Iguaçu, mas não o levaram ainda a se decidir, pelo menos publicamente, a desafiar Lerner. A única vaga ao Senado, que será aberta com o fim do mandato do senador José Eduardo de Andrade Vieira (PTB), é sedutora como o canto da sereia, e seria uma conquista mais fácil que o governo do Estado. Para quem está praticamente há oito anos sem mandato, a tentação, compreensivelmente, é forte.
Candidato declarado à reeleição, Lerner terá a seu favor o fato de ser e estar no governo, mas o ônus do poder, com seu desgaste natural associado à conjuntura delicada da economia nacional, com reflexos nefastos sobre os cofres estaduais, poderão comprometer seus planos.
Lerner preserva a dianteira no Sul, seu principal reduto, e para ampliar sua base eleitoral no restante do Estado - ou reconquistá-la - terá de se desdobrar para convencer os moradores das demais regiões de que seu governo não as menosprezou em benefício da Capital e Região Metropolitana. Apesar de toda a propaganda oficial - farta, aliás - de que o governo tem-se debruçado sobre os problemas do interior, levando o desenvolvimento às regiões mais deprimidas do Estado, a sensação geral, que os adversários do governo exploram e vão explorar ainda mais no transcorrer do processo eleitoral, é de que, de fato, a prioridade da administração Lerner sempre foi, é e continuará sendo Curitiba e cidades vizinhas. Se for apenas uma sensação, o governador não terá muito trabalho para desfazê-la. Do contrário...

mockup