O presidente Fernando Henrique encerrou seu merecido descanso na Ilha da Marambaia e, bronzeado como um mulatinho, despacha desde ontem com assessores no Palácio da Alvorada. Deputados e senadores afivelam as malas para voltar - ó vida cruel - a seus nobres afazeres, em meio ao horizonte tedioso do Planalto Central. O governador Jaime Lerner, depois de uma breve e fértil temporada nos Estados Unidos, onde assinou, finalmente, dois importantes empréstimos que seus empedernidos adversários no Senado tentaram a todo o custo impedir, se prepara agora, em Tóquio, para lascar mais uma assinatura em outro contrato de financiamento, que seus opositores infernais também boicotaram, de obras vitais a seu governo - principalmente neste quarto e derradeiro ano de mandato...
1998 começou, preguiçoso como todo início de ano, ritmo que irá se estender até após o Carnaval para, então, dar lugar às eternas especulações e cobranças sobre a escalação de nossa seleção de futebol. E então entraremos no período mais pródigo e contagiante da cultura nacional, e torceremos, vibraremos, sofreremos, teremos alegrias desmesuradas por nossa Seleção, apesar de todo o desprezo que certamente iremos manifestar em relação a Zagallo, à comissão técnica da Seleção e à CBF.
E então, já no final de julho, comecinho de agosto, estaremos sorvendo o doce sabor da vitória ou nos revolvendo com a amargura da derrota e, aí, seremos chamados a despertar para nossa missão cívica e prestar atenção a um fato pequeno, corriqueiro, mas que, infelizmente, não podemos rejeitar com a ênfase que muitos gostariam - o processo eleitoral estará entrando em sua etapa final e teremos apenas dois meses, no máximo, para nos decidir em quem votar para presidente da República, governador, senador, deputados federais e estaduais.
O ano será marcado pela estrela da reeleição, que a todos nos guiará, para o bem ou para o mal. O presidente e muitos governadores, como o nosso Jaime Lerner, terão de se desdobrar para reverter a tendência declinante de seu prestígio, fato que, para eles, é a ironia das ironias, pois esperavam estar colhendo - para usar uma expressão que tanto os agrada - os frutos de suas respectivas colheitas já desde o último semestre do ano passado.
O maior desafio para Fernando Henrique será a retomada do crescimento econômico, que patina desde a implantação do Real e, com o crash das bolsas de valores da Ásia, engatou uma marcha à ré obstinada. A recessão dos próximos meses, que os ufanistas preferem chamar de retração econômica, não poderá se prolongar até o início do segundo semestre, mas tanto são os fatores imponderáveis da economia, nacional (principalmente) e mundial, que poucos ousam fazer um diagnóstico definitivo. O grande trunfo do presidente é a ausência, por enquanto, de adversários de porte. Apesar dos pesares, a estrela da reeleição ilumina seu caminho, por mais pedregoso que seja.
Jaime Lerner, agora com os empréstimos desbloqueados, terá fôlego para tocar algumas obras. Seu sucesso estará vinculado a elas e à interiorização de seu governo, que, aliás, seus assessores vão colocar em prática assim que ele voltar do exterior. Mas, ao contrário do presidente, Lerner enfrentará adversários poderosos, carismáticos, suficientemente fortes, caso as eleições fossem hoje, para arrebatar-lhe o cetro.
Para os que ficarem pelo caminho, feliz Ano Velho.

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