Brasil On Line (José Antonio Pedriali)
A bancada federal do PT convenceu ontem Lula a adotar uma posição seletiva em relação ao pacote de ajuste anunciado segunda-feira pelo governo. O virtual candidato petista à sucessão de Fernando Henrique vai elogiar algumas medidas, mas a outras não dará trégua. Na primeira entrevista que concedeu após reunir-se com a bancada, Lula demonstrou que aprendeu a lição: atacou o aumento da alíquota do imposto de renda.
Quem mente?E agora, José? perguntou certa vez o poeta, e esta pergunta pode ser estendida ao presidente Fernando Henrique Cardoso quanto a seu projeto de reeleição depois do pacotaço de segunda-feira, considerado inevitável pelo governo para salvar o Plano Real dos efeitos nefastos do crash das bolsas de valores.
A questão está sendo debatida intensamente pelos aliados do governo no Congresso, cientes de que o custo político do pacote será alto, mas seu impacto a longo prazo junto à opinião pública não pode ser mensurado no momento. O Palácio do Planalto espera ter em mãos amanhã a primeira pesquisa em nível nacional, realizada para aferir o ânimo da população com as medidas amargas impostas em defesa da estabilidade econômica.
Os partidos de oposição, como não poderia deixar de ser, esfregam as mãos, vislumbrando a tão esperada plataforma de lançamento de um candidato que possa se apresentar como alternativa confiável a Fernando Henrique. A tarefa, hoje como ontem, continua exigindo esforço hercúleo. O PT se agita com a possibilidade de consolidar a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva, que ontem recebeu uma lição de economia da bancada de seu partido no Congresso, para que pudesse se inteirar dos detalhes e das consequências do reajuste do Real.
O brilho que o Real produzia, principalmente junto às camadas mais pobres da população, certamente perderá seu encanto quando começarem a ser sentidos os primeiros efeitos do pacotaço, o que não irá demorar, e esse embaçamento irá se estender naturalmente à imagem do presidente. Temos pouco menos de 11 meses para as eleições e só os profetas do Velho Testamento - que infelizmente há muito deixaram esse vale de lágrimas - seriam capazes de prever como estará o humor do eleitorado na hora de confirmar ou não a reeleição de FHC. Mas se a eleição fosse hoje, com a população digerindo com extrema dificuldade e má vontade o pacotaço - apesar de o presidente ter declarado ontem justamente o contrário -, certamente Fernando Henrique teria uma desagradável surpresa.
As mais recentes pesquisas de opinião indicam que Fernando Henrique não conseguirá repetir o feito de 1994, quando se elegeu no primeiro turno com folgada vantagem sobre seu adversário mais próximo. A política recessiva que passou a adotar com o pacotaço sugere que o prestígio do presidente entrará numa zona de turbulência perigosa para seus planos, o que, pela lógica, irá fortalecer seus opositores.
A oposição terá, a partir de agora, instrumentos de que não dispunha antes para criticar o Real. A crítica antes era interpretada como simples instrumento político; a partir de agora - como ressaltou ontem a Folha de S. Paulo em editorial - encontrará ouvidos atentos. E quem souber utilizar a crítica com precisão, mesclando-a com propostas alternativas à condução da política econômica, terá grandes chances de conseguir adeptos.
Fernando Henrique foi sugado pelo labirinto quando, a esta altura de seu governo, planejava fincar sua bandeira no Everest da estabilização econômica combinada com o crescimento. Seus adversários ainda continuam no túnel. Mas já enxergam a luz.
Bom aluno





