Brasil On line (José Antonio Pedriali)
O que aconteceu com o aumento do IPI que a equipe econômica pretendia aplicar aos cigarros e não consta do pacote anunciado ontem? O lobby dos fabricantes foi mais forte que o das montadoras, que não conseguiram manter o imposto anterior?
Para pensarAcabou-se o que não era tão doce assim, mas perto das medidas econômicas anunciadas ontem com certeza nos deixará saudades. Desde que as bolsas asiáticas começaram a ruir sentíamos comixões por todo o corpo, mas a equipe econômica surgia com toda a presteza para espantar nossas preocupações. Com o crash das bolsas brasileiras, o chão de repente nos faltou, mas aí Fernando Henrique nos tranquilizou com aquela estória de que era tudo uma miragem, pois a muralha que protegia o real era forte o suficiente para deter a sanha dos especuladores internacionais.
E eis que no domingo dormimos como cidadãos de segunda classe do Primeiro Mundo para acordar na segunda-feira plenamente integrados ao Terceiro. O Plano Real, que nos deu durante três anos a sensação - ótima, aliás - de que éramos um país sério, surgiu diante de nós nuzinho em pêlo e aí todos percebemos quão raquítico é ele sem aquela roupagem emplumada com a qual Fernando Henrique e seus ministros da área econômica o adornavam.
Acordamos, enfim, do prolongado sonho de que éramos um país de economia saudável, bem estruturada, que apesar de todas as mazelas - principalmente aquelas que os partidos de oposição e alguns economistas cricas não se cansam de condenar - eram apenas detalhes, e como tais seriam solucionados em breve. O presidente acreditava no real, seus ministros acreditavam no real, então por que duvidaríamos dele?
Voltamos, enfim, aonde sempre estivemos: ao Terceiro Mundo, apesar da inflação baixa e moeda supervalorizada - por enquanto, pelo menos - mais por força de uma estratégia de governo do que propriamente pelos agentes econômicos. A força de nossa moeda expressa, por antagonismo, a fraqueza de nossa economia, pois desde a valorização do real que o déficit público e das transações comerciais não parou de crescer, enquanto nossas exportações entraram numa espiral descendente, contrariando sua trajetória histórica.
O despertar para a realidade, apesar da aridez que vamos encontrar pelo caminho, traz o benefício de nos alertar para a superficialidade do Plano Real que, agora, antes tarde do que nunca, começa a ser combatida pelo governo. O governo promete enxugar despesas, demitir funcionários não estáveis, fazer uma faxina quase geral, jogar pesado com o Congresso para aprovar as reformas estruturais tão necessárias para uma economia a longo prazo.
Muito bem. A dose amarga, no entanto, caberá mais uma vez à sociedade, que terá de pagar mais impostos e tarifas mais altas e comprar menos com juros de dar inveja a marcianos. Em outras palavras, o sonho da prosperidade - que o real alimentava - terá de ser adiado para o ano que vem, para 99 ou para o terceiro milênio...
Fernando Henrique foi ousado ao frear a economia em um ano que antecede sua tentativa de reeleição, mas não tinha alternativa. Se não o fizesse, a vaca iria fatalmente para o brejo, arrastando consigo seu projeto político. Fazendo o que fez, preserva em parte sua credibilidade, mas em que medida e até quando?O que aconteceu?





