Sindicalistas da Central Única dos Trabalhadores prometem infernizar hoje a vida dos deputados federais. Para lembrar, mais uma vez, a oposição da Central às reformas administrativa e da Previdência, os sindicalistas planejam sair às ruas de Brasília, às 6 horas da manhã, com um potente trio elétrico. Será uma sereneta ao alvorecer. A manifestação foi batizada de ‘‘Bom dia, parlamentar’’.
FalecimentoA crise internacional das bolsas apanhou o Brasil de calças curtas. O presidente Fernando Henrique vem capitaneando os esforços da equipe econômica para tapar os furos no casco do Real, mas a quantidade de água que se alojou nos porões do navio não pôde ainda ser avaliada. Como também não puderam ser detectadas todas as avarias que essa infiltração está causando e ainda irá causar à embarcação. Navegamos em águas turvas, o capitão e o timoneiro se esforçam para manter o navio em sua rota original, mas o crash das bolsas pode ser apenas a ponta do iceberg. A lembrança do Titanic é terrível demais para ser evocada neste momento. Mas seu simbolismo deve nos servir de alerta.
A ofensiva iniciada ontem por Fernando Henrique para tirar o Congresso da letargia em relação às reformas estruturais, consideradas vitais para a preservação e aprimoramento das conquistas do Plano Real, é a atitude mais correta que se poderia esperar do presidente. No momento, pelo menos, pois a evolução da crise, tida como certa, exigirá outras medidas, ainda mais duras. Os líderes do Congresso aliados ao governo fazem suas as preocupações do presidente e garantem se empenhar para a aprovação das reformas. Mas a batalha que terão de travar com seus pares exigirá suor e sacrifício.
E as resistências não se limitarão apenas aos parlamentares de oposição. Diversos líderes oposicionistas - entre eles Luís Inácio Lula da Silva - rebatem a acusação de que é a eles e a seus seguidores que deve ser atribuído o fracasso observado até agora na aprovação das reformas. Para esses líderes, os verdadeiros culpados são o governo e parcela significativa de seus aliados no Congresso.
O governo, por não se esforçar como deveria - até agora, por exemplo, se contentou com a Lei Kandir, com a criação da CPMF, do FEF e outras atitudes emergenciais para tapar o sol com a peneira e deixar a reforma tributária, ampla, geral e irrestrita, repousando em berço esplêndido. A base governista, por estar impregnada de vícios históricos e de uma compulsão irresistível para seguir um dos mais conhecidos preceitos de São Francisco, o ‘‘é dando que se recebe’’.
Lula e os que pensam como ele têm razão, mas lembremos que a reforma administrativa, que mexe e remexe com a vida dos servidores públicos, não avançou porque os partidos de oposição se comportam como instrumentos dessa categoria na luta contra a perda de seus privilégios.
Se recessão é palavra que tira o sono de todos, principalmente de um presidente-candidato, o simples esfriamento das atividades econômicas - cenário mais que otimista para os próximos meses - abala desde já o projeto político de Fernando Henrique. E pode vir a ameaçá-lo seriamente no ano que vem, quando colocará à prova sua popularidade. Se até lá as avarias forem solucionadas e o mar estiver calmo, o comandante-timoneiro terá grandes chances de renovar seu mandato. Do contrário, poderá haver um motim a bordo e, o pior, a nau do Real poderá ser interceptada e conquistada pelos corsários. E seu capitão abandonado no mar revolto.
Acorda, deputado

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