Brasil On line (Jose Antonio Pedriali)
A muralha que protegia o Plano Real não é tão forte assim como garantiu no início da semana passada o presidente Fernando Henrique Cardoso, logo após o primeiro abalo registrado pelas bolsas brasileiras em consequência do terremoto que jogou por terra o mercado financeiro internacional. Depois de praticamente uma semana de crashs sucessivos nas bolsas, a economia brasileira revelou-se altamente vulnerável às trombetas de Jericó, sopradas pelos arautos da globalização.
Num mar de tubarões, o Brasil teve de se comportar como qualquer peixe miúdo: proteger-se da fuga de capitais estrangeiros - especulativos na maioria dos casos - através do aumento da taxa de juros e camuflar-se para impedir a desvalorização de sua moeda promovendo vertiginosos leilões de dólares. Resultado: nossas reservas cambiais tiveram perdas consideráveis e a alta de juros, cuja duração é mantida em suspenso pela equipe econômica, levou a nocaute temporário o comércio e a indústria, sem que haja perspectiva a curto prazo da retomada do volume de negócios observada nos últimos meses.
De qualquer forma, a recessão é uma ameaça. Se as bolsas não sofrerem novos ataques, teremos uma desaceleração da economia provocada pelos juros altos. Se elas voltarem a cair - e isso poderá acontecer a qualquer momento - poderão levar consigo todas as conquistas obtidas nos três anos e meio de vigência do Plano Real. Para evitar o desastre, o País precisa de algo mais que a camuflagem e de uma proteção verdadeiramente sólida, com efeitos a longo prazo. E esta proteção são as reformas estruturais - administrativa e da previdência - prometidas pelo candidato Fernando Henrique e até hoje não iniciadas porque dependem de aprovação do Congresso ou do esforço do próprio governo, no caso das reformas fiscal e tributária.
Essa é a linha de raciocínio que está pautando a ação política do presidente nos últimos dias. O primeiro passo da grande ofensiva para a aprovação das reformas - e construção de uma muralha verdadeiramente sólida para proteger o real - será dado hoje. O presidente se reunirá com todos os líderes aliados no Congresso para definir a estratégia que possa levar, enfim, à aprovação das reformas.
Para preparar o início da grande ofensiva, Fernando Henrique consultou ontem dois especialistas sobre o humor dos congressistas: Antonio Carlos Magalhães, presidente do Senado, e seu filho, Luís Eduardo, líder do governo na Câmara. Os dois saíram do encontro garantindo que as reformas, apesar de todos os percalços que possam encontrar, serão aprovadas até o final do ano. Custe o que custar.
Os dois líderes estão otimistas demais. Há grandes resistências a ser superadas. Fernando Henrique brandirá o argumento de que a defesa do real, à qual estão vinculadas as reformas, é questão de sobrevivência nacional, e quem se opuser a elas estará se comportando como um lesa-pátria. Os partidos de oposição, que agiram com maturidade durante a crise das Bolsas, não estão dispostos, por enquanto, a pôr mais lenha na fogueira, mas também não querem abrir mão de pontos que consideram inegociáveis.





